A MULHER MODERNA

Por FELIPE RODRIGUES

Sobre o livro

Se à mulher se tivesse reconhecido desde há um século e meio o direito de, como ser humano, se desenvolver autonomamente, renunciando ou desistindo do sexo; se ela tivesse desfrutado da independência econômica e política, com influência direta na obra social, seria muito mais elevada a nossa civilização e teria sido impossível essa guerra estúpida em que os homens se agridem com maior ferocidade que os animais selvagens.

A mãe teria compreendido que, por mais horríveis que sejam os sofrimentos dos soldados em campanha, maior é, todavia, a angustiosa desolação de que a guerra deixa absorvido o coração amorável da mulher.

A unilateral autonomia do homem, o seu monopólio secular da administração das cidades e das nações não tem podido dar frutos mais desagradáveis e estragados.

A já citada socióloga espanhola Conceição Arenal, a que a posteridade há de prestar a devida justiça, fez magistralmente, há cerca de um século e meio, o infeliz balanço da administração masculina, ao expor as razões por que considerava indispensável a intervenção da mulher nos negócios públicos.

Cada razão enunciada é ao mesmo tempo um sinal da inaptidão do homem para o bom governo e prosperidade dos povos, quando operam por si só.

Dizia assim essa mulher insigne: “Para que não pareça que os estabelecimentos de beneficência se chamem assim por uma espécie de desprezo aos que neles recebem tanto mal; Para que os manicômios não causem escândalo e dor aos que têm coração e consciência; Para que as crianças não se amontoem em escolas onde mais perdem a saúde do que adquirem conhecimento, ou não tenham escola para onde ir e vagueiem pelas ruas e pelos campos, iniciando-se nos jogos de azar e no roubo, por meio de pequenos furtos; Para que se aprenda o que convém saber e os conhecimentos não sejam um elemento perturbador, pela sua aglomeração nas profissões menos necessárias; Para que não seja perseguido como um criminoso o que pede esmola por necessidade, e para que o mendigo vicioso não viva à custa da caridade cega; Para que a caridade deixe de ser instinto para tornar-se sentimento e raciocínio e não dê esmolas à toa; Para que as prisões sejam auxiliares do Direito e não menosprezo da Justiça; Para que os presos não apodreçam em cárceres e os condenados não se desencaminhem nas penitenciárias; Para que os moralmente órfãos, aqueles que não têm pais, senão para lhes darem mau exemplo e maus tratos, encontrem proteção, guia e consolação; Para que aqueles que por qualquer motivo se transviaram “desmoralizaram; desencaminharam; desorientaram; degradaram; desonraram; desnaturaram; adulteraram” na meninice ou na juventude, achem quem os leve ao bom caminho; Para que a mulher não encontre fechados todos os caminhos quando quer trabalhar, e para que a remuneração do seu trabalho seja equitativa “justa; igualitária;” Para que as leis injustas e perversas não passem sem protesto, e as boas não fiquem sem cumprimento.” O mundo perde hoje enormes riquezas, em virtude do trabalho incompleto, mesquinho e apagado de todos aqueles que não ocupam na sociedade o lugar que lhes pertenceria pelo seu temperamento psíquico e mental, e que, por isso, trabalham sem dedicação e entusiasmo.

Daqui resulta a inquietação e o desgosto que dominam os que, por erro de vocação ou pela tirania das circunstâncias, se veem forçados a fazer o que repugna “rejeita” à estrutura psíquica do seu ser.

Todo o recém-nascido traz nos lábios, que só o choro manifesta, uma mensagem para o mundo; traz, como capital próprio, um certo número de qualidades, que lhe hão de permitir prestar à sociedade determinados serviços.

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