Sobre o livro
O texto experimental de Verônica Ramalho investiga as dimensões do olhar em uma jornada sensorial e literária na qual a tensão entre ver e dizer está em primeiro plano.
“Corre meu corpo no terreno vasto. Corre até o ofegar, até o cabo do cansaço, assisto de cima. Cavo um buraco, enfio meu corpo, me escondo.
Inteira, abraço os joelhos, a areia escorre sobre mim, ciscos nos olhos, a esperança de não ver mais nada, rolam os grãos de areia, de pedra, estilhaços de conchas. Partículas úmidas, areia na boca seca, adormeço e há um mundo por baixo da terra.
Pouca luz, poucos olhos, ver tão pouco e sentir a base do mundo por toda a pele. Ser minhoca com a consciência da terra. Viver minhoca flexível, comer o chão que pisamos. Espreguiçar-se raiz, procurar o fundo mais fundo e se recobrir de água subterrânea. O mundo é um mole.”
Posfácio
“Muito se escreveu sobre a importância da produção de imagens na literatura. Pouca atenção foi dada às condições de possibilidade da percepção desses mesmos mundos-imagens, ou seja, aos actantes e às agências internas ao poema e à poesia. Qual seria o lugar do transumano na literatura?
Quais as implicações de uma alteração do estatuto ontológico do narrador? Como abordar as zonas de indiscernibilidade dos sentidos e dos percipientes? Este brilhante livro-poema de estreia de Verônica Ramalho traz essa preocupação em cada uma de suas linhas.
Realiza assim um tipo de escrita ainda pouquíssimo explorada na literatura brasileira: uma escrita celular.
Verônica propõe uma microscopia da percepção. O atomismo de uma linguagem-organismo, entendida simultaneamente como palavra e mulher, destino e corpo. Esta forma-consciência flutuante e estes olhos-multiplicidade se apresentam como uma lente multidimensional, oscilando entre as palavras e as coisas.
Somos capturados pelo deambular oblíquo de olhos-vidros, olhos-peixes, olhos-unhas, olhos-pedras, olhos-lodo, olhos-conchas e olhos-dentes que tateiam toda sorte de sons, cheiros, sabores e formas.
Como mônadas, a infinidade de átomos metafísicos que se pluralizam e se dissipam, dilatam-se e se reúnem para configurar o universo, estes mil olhos produzem mil reverberações e prismas. E, no entanto, em nenhum momento deixam de nos remeter ao devir do mundo-mulher de onde emergem.” Rodrigo Petronio
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