Sobre o livro
Nota do Autor
Este não é um livro sobre assassinatos.
É um livro sobre proximidade.
A maior parte das narrativas criminais depende de monstros facilmente reconhecíveis — indivíduos distorcidos, histórias traumáticas, explicações que oferecem ao leitor um abrigo moral confortável. Nada disso me interessava. O que me interessava era a zona anterior à monstruosidade. O ponto exato onde ela ainda não recebeu nome.
Existe uma diferença mínima entre segurar alguém e não segurar. Entre manter a mão imóvel e permitir que a física faça o resto. Essa diferença não é dramática. Não exige ódio. Não exige impulso descontrolado. Exige apenas a descoberta de que o mundo é estruturalmente maleável.
O que sustenta a nossa confiança diária no outro não é virtude absoluta. É estatística. Confiamos que a pessoa atrás de nós na escada não testará o milímetro. Confiamos que a proximidade não será explorada. Confiamos que a abstenção continuará sendo a regra.
Mas confiança não é garantia. É frequência.
Escrevi este romance para explorar a possibilidade mais desconfortável de todas: a de que a linha invisível que separa estabilidade e queda não é moral — é geométrica. E que qualquer pessoa suficientemente atenta pode percebê-la.
A literatura tem o dever de perturbar zonas onde a normalidade parece indiscutível. Se este livro causar em você uma pausa ligeiramente mais longa ao sentir alguém atrás de si numa escada, então ele cumpriu sua função.
Não porque o mundo seja frágil.
Mas porque ele sempre esteve a um milímetro de distância.
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