Sobre o livro
A Fuga das Zebras livro faz parte de uma fase que poderia ser chamada de neoconcretista ou geometrista da obra de Humberto Henriques. Esse livro é pujante desde a sua origem, suas primeiras páginas. Um livro denso, cheio de belas oportunidades para a revelação de uma estética modernista e avançada.
O livro ultrapassa os sentidos e as ideias propostas pela Semana de Arte Moderna de 1922, releva toda a organização das frases montadas em regime de prosa para serem chamadas de poesia.
Se colocadas na ordem simples da retórica, frase após frase, vírgula após frase pós vírgula, isso consolidaria a prosa em seu estado original e sem pecados. Mas ainda assim, seria prosa. Se for prosa de boa qualidade, melhor ainda. Continua sendo prosa.
O que acontece com A Fuga das Zebras é a ruptura com esse processo de criação que estende a prosa ao longo da página e explica que isso é poesia. E não é. Jamais foi.
A Semana de 22 capacitou esse tipo de representação, que se diga de passagem, foi muito importante, mas que continua sendo história nesses momentos de transição pela qual passa a poesia e seus conselhos de gênero.
A poesia evoluiu e perceber isso demanda estudo, como em tudo que precisa ser devidamente entendido dentro dos processos de evolução existencial.
Como em Djógenes e os Teoremas e outros títulos, o autor utiliza de figuras geométricas para concretizar um trabalho poético esmerado.
A Viúva e a Melancia é outro título que congemina com esse, acontece esse artefato por conta da maneira paralela dos dois livros de levar avante um projeto de modernização poética.
Esse acontecimento todo, esse processo que demonstra evolução nas Artes Plásticas como um todo – porque, verdade seja dita, isso não acontece de forma isolada e um carro sempre tira outra charrua, onde um vai, outro conjunto segue o cortejo da progressão – não seria jamais possível sem o uso ostensivo da computação gráfica.
A inserção do uso do computador no seio da poesia e outras atividades literárias facilitou sobremodo o manuseio da inteligência e da palavra.
Porém, isso não acontece pelo computador em si mesmo, é necessário que o poeta esteja presente e possa fazer uso de todos os seus critérios anteriores, mesmo que tenha que se submeter a um Shakespeare ou a um Ludovico Ariosto que estão postados à margem de toda a sua criação; ou mesmo no centro dela.
A dizer-se de outra forma, a casa é feita sobre alicerces sólidos e os clássicos fazem parte imponente na sua construção.
Esse trabalho, A Fuga das Zebras, não dispensa o uso da palavra para que se recaia somente na chamada construção poética visual. O poeta faz questão de manipular a palavra até o seu uso mais apropinquado.
Com isso, deixa de lado o visual puro, conforme iria acontecer mais tarde em suas obras, o visual sem palavras, somente o pictórico alertando as cores com a possibilidade da criação de novidades sensoriais.
Isso acontece com Gado de Sorte e com o livro Chora Rita, ambos de um tempo bastante posterior a esse que agora se inaugura como espectro de modernidade na obra de Henriques. Isso se deve à sua insistência em modernizar o gênero e enveredar pela tendência experimental.
Aliás, diga-se de passagem, nunca houve um título de livro tão ordinário como esse – caçoa o poeta, ele mesmo, dono da obra -, Chora Rita, que é o nome de uma cachaça do começo desse século, uma pinga de matar rato, tamanha a qualidade de seu espírito alcoólico.
Humberto Henriques aprecia remexer nessas tendências ousadas, tratar a poesia com esse gosto de ampliação de sentidos. Faz isso com a maestria dos iluminados.
A palavra entra nesse interstício de poesia grandiosa, mescla-se com o todo e mostra um resultado surpreendente diante do poema pronto. O experimento que se propôs anteriormente passa a fazer parte desse arsenal de poesia complexa. Portanto, deixa de ser simplesmente experimento e passa fazer parte do atributo da obra, de sua parte holística. Não sendo mais experimento, dá lugar a novas cargas de buscas. Se
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