A droga não foi meu maior inimigo

Por Veridiana Pires

Sobre o livro

Meu nome é Veridiana Pires. Hoje estou com 51 anos e fui uma adicta na ativa durante décadas atravessando o espelho, fugindo de mim mesma, tentando anestesiar uma dor que eu mal sabia nomear. Mas milagres existem e eu sou a prova viva de um deles. Hoje sou uma adicta em recuperação.

E serei assim, em vigilância e reconstrução, até o meu último suspiro. Escrevi este livro para que a minha dor não seja em vão. Quis que a minha história servisse de alerta, de conforto e, acima de tudo, de bússola para você que se identificou comigo.

Se você sente que a sua vida está escorrendo entre os dedos, este livro é para você. Precisamos parar de mentir para nós mesmos. Quando estamos sob o efeito de drogas, temos a perigosa ilusão de que somos invencíveis, de que o mundo está aos nossos pés. É mentira.

O que existe é uma tentativa desesperada e frustrada de fugir de problemas reais que, em vez de sumirem, crescem como monstros na nossa ausência. Enquanto nos embriagamos ou usamos, a vida lá fora continua cobrando o seu preço, e a conta só aumenta.

Na ativa, nos tornamos seres humanos que não reconhecemos: mentirosos, manipuladores e impulsivos. O ego infla para esconder uma fraqueza imensa. Erramos, como todos erram, mas o nosso erro tem um custo devastador: ele coloca tudo a perder.

Esquecemos o rosto dos nossos pais, a voz dos nossos irmãos, o valor dos nossos amigos. Trocamos o amor pela anestesia. E o resultado é sempre o mesmo: a perda da nossa dignidade e dos nossos valores. Recuperar o que foi destruído é uma tarefa árdua e, às vezes, solitária.

Eu ainda carrego cicatrizes profundas. Até hoje, não consegui recuperar o amor do meu filho, e há dias em que a dúvida me assombra: será que um dia conseguirei? Também luto para reconquistar a confiança daqueles que traí com as minhas mentiras e ausências. Somos doentes? Sim, a ciência diz que sim.

Mas não podemos fazer da doença uma “desculpa esfarrapada” para continuarmos acorrentados ao vício. Ser doente não nos retira a humanidade de tentar o “não”. A adicção nos promete felicidade e aventuras, mas nos entrega apenas três destinos: o hospital (ou hospício), a prisão ou o cemitério.

Eu vi de perto essas três portas. Vi o hospício na minha última internação, lidando com o limite da sanidade humana. Vi o cemitério quando meu pai, em um ato de desespero e realismo, comprou até o meu jazigo.

E vivi na prisão da minha própria alma, onde eu era a carcereira e a prisioneira ao mesmo tempo. Eu te pergunto, de coração aberto: quais são as vantagens reais? O prazer imediato é um sopro que se vai em segundos, mas o preço que ele cobra é a nossa alma. Não vale a pena.

Demorei décadas para entender isso, mas hoje tenho a convicção de que, no uso, eu só perdi. Hoje, estou aprendendo a viver uma vida nova. Já recuperei muito, mas o mais difícil é restaurar a confiança de quem “sacaneamos”. Sim, a palavra é essa. Nós ferimos quem mais nos amava.

Por isso, peço que você pare e pense. Pense nas alternativas que você tem agora, antes que seja tarde demais. Olhe para os seus familiares, para os seus verdadeiros amigos e, principalmente, olhe para você. O amor é o sentimento mais importante da vida.

Vale a pena perdê-lo por uma substância química? Conto minha história de forma honesta. A vida não precisa ser uma sucessão de fugas; ela pode ser uma vida normal, comum, cheia de altos e baixos, como a de qualquer ser humano.

Aprender com os obstáculos, em vez de saltar por cima deles com drogas, é o que nos faz crescer. Não escolha o abismo. Escolha a luz, escolha a dúvida da sobriedade em vez da certeza da destruição. É o que desejo a você, com toda a minha verdade.

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