A cidade é um rim

Por Felipe Boaventura

Sobre o livro

O livro constitui uma bela trama de ruídos urbanos, relatos de pequenos acontecimentos aparentemente insignificantes que voltam, recorrentes, na memória, paisagens belas e não tão belas, os cheiros e as fraturas que o asfalto quente oferece à nossa experiência e imaginação.

A cidade está presente em todos os meandros do texto e dos subtextos, pulsando com o ritmo e as tensões da complexidade de encontros, medos e silêncios que a experiência urbana nos oferece. Disso, o livro dá conta e surpreende. O contos são curtos e densos como a textura urbana.

Flashes que se articulam com o drama do cotidiano, micro incidentes espantosamente comuns, figura emblemáticas , o amor em fragmentos. Surgem também, como protagonistas, as pequenas obsessões de uma multidão em movimentos que passariam desapercebidos e que nesses contos ganham vida e cor.

Enfim Felipe Boaventura é um contista nato, que dá conta de seu ofício e não teme se enveredar pelo caminho complexo de retratar a cidade. Um autor que sinaliza a inquietação como instrumento e a paixão pela palavra.

Mas e o título?

Insisto: por que que essa metáfora tão forte e desconcertante orientando nossa leitura? Para responder pensei em duas direções. A definição vocabular, encontrada n dicionário e a definição literária, encontrada no último conto que dá nome ao livro.

O dicionário nos ensina que os rins são dois órgãos, localizados em ambos os lados da coluna vertebral medindo aproximadamente 20 centímetros. Suas principais funções são: filtrar e eliminar toxinas , manter nosso equilíbrio hídrico e produzir hormônios indispensáveis à vida.

A ideia da importância deste órgão como fator de equilíbrio, filtro e auxiliar do funcionamento do coração e de nosso recursos respiratórios e hídricos mostra a natureza do rim como um orgão vital do corpo. Assim como a cidade, que filtra e guarda memórias, experiências e significações.

O rim, segundo o próprio autor, enquanto metáfora visceral da cidade.

Já no conto e/ou na literatura a cidade nos “ensina como usar um sotaque, como ser pego por um ônibus, a amar um time de futebol, um parque, uma árvore de flores amarelas.” . A cidade como centro de nossa experiência.

Voltando mais uma vez ao conto, seu desfecho é ambíguo e instigante. A metáfora que rege essa obra vem, na realidade, num momento crucial de dramático da vida: as últimas palavras de um pai ao filho diante de sua morte provável.

Diz ele: Lembre-se meu filho: a cidade é um rim que te acompanha. Você é feliz meu filho?”

Uma metáfora decisiva e dramática que, – como em toda narração que se propõe como transmissão de conhecimento – , é construída no processo e no diapasão da sabedoria.

(Heloísa Buarque de Hollanda)

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