A Casa do Faisão Dourado

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

A incursão de Humberto Henriques pela dramaturgia é uma espécie de complementação de sua obra ampla. Romancista, contista, poeta, ensaísta e novelista, agora o autor entra nesta senda, aliás, permanece nela. Não é o primeiro livro – ou primeira peça de teatro – que o autor produz.

São peças sólidas, densas, todas baseadas na agregação de um conhecimento vasto de todos os campos das atividades humanas. A Casa do Faisão Dourado é uma tragicomédia emblemática. É um tambor de roleta russa, a dizer a verdade.

Nada se perde nesse livro e as relações humanas e socias que mostram ali as vísceras e os ventres estão afloradas. O homem é estudado de maneira exemplar. Portanto, é uma síntese da sociedade de um empo determinado.

Porém, esta síntese desse tempo pode ser estendida para qualquer tempo ou para qualquer ponto do universo. Então, A Casa do Faisão Dourado seria como uma nave ou um navio muito dinâmico e que pode se deslocar ao longo do tempo e do espaço para ocupar posições em qualquer universo.

Por ser uma obra genial, confunde literatura com teatro e mesmo exigira para sua produção uma equipe multidisciplinar, tamanha a abrangência do texto em causa.

Humberto Henriques me confessou que esse nome veio a proposito e recorreu sobre seu drama de uma forma apósita.

Conta que havia em Uberaba um prostíbulo, uma rua inteira de casas de rameiras de toda espécie, muito famoso pela sua extensão e pela extensão das gonorreias que conduzia, a famosa Rua São Lourenço. Quando chegou a Uberaba, em 1969, Henriques diz que havia essa zona boemia funcionando a pleno vapor.

Ao lado da outra tão famosa quanto ela, a Rua São Miguel. Uma no centro da cidade, quase ao lado da Catedral Metropolitana e a outra no bairro São Benedito. Mesmo assim, embora bairro, quase região central.

Quando escutava o nome da São Lourenço afamada, chegava a se arrepiar poque os casos que ouvia eram todos trágicos, cheios de facas e sangue. O autor tinha dez anos de idade e lá não era sítio onde menino devesse ir de forma impune.

Ele e colegas, porém, curiosos, aproveitando a luz do dia, atravessavam a grande rua e espiavam as mulheres às janelas e sacadas, nas varandas, os trajes despojados e as frases que vinham a tiracolo. “Vem cá, meu lindinho!” a meninada corria. E ia rir longe dali.

Depois, ele ficou conhecendo um solar nessa mesma rua. A casa mais majestosa da zona, de propriedade de uma certa Anadia, dita a Badiona. Havia uma decoração com ladrilhos na face externa da grande casa, um sobrado magnífico. Esse sobrado contrastava com o restante dos casebres da rua.

Porém, o desenho, uma formação amorfa de cores distintas da fachada como um todo, chamou demais a atenção do romancista. Aquilo ficou em sua cabeça. Porém, veja-se o fato curioso, esse faisão dourado não estava ali. Estava em outro lugar da cidade. Um lugar muito mais nobre, a Rua Afonso Ratto.

Havia lá uma casa de moradores convencionais, gente boa da cidade, onde havia um faisão dourado na parede frontal externa. Feito com ladrilhos miúdos, em formato de mosaico. Cores deslumbrantes do vermelho ao preto, azul e verde. Coisa distinta e agradável aos olhos.

Isso também foi fascinação para o espírito do escritor. Dali ele retirou o faisão dourado e inseriu na casa da Badiona. Cumpria com isso um ritual iconoclasta e secular, determinação que lhe vinha desde a formação dos arquétipos de seu espírito novelista.

A construção do drama, – ou comédia – da forma como foi feita, representa um resgate a mais para a cidade e Uberaba. Henriques conta que as duas casas em causa, as mencionadas, não existem mais. diz isso com certa pena diante do sucesso desse acontecimento.

Entretanto, aqui não se trata da exploração de mais um texto em função de uma cidade. Esta peça tem caráter universal. Ela traduz todos os anseios humanos que poderiam ser ponderáveis dentro de uma sugestão de teatro. Portanto, inequívoco que vai além de pequenos limites.

Drama em 3 atos, como as peças anteriores propostas por Hum

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