Sobre o livro
Um livro de poesias cheio de surpresas agradáveis e enternecimento. Assim poderia ser dito sobre mais um compêndio com a marca de estilo inconfundível desse autor cuja produção excede o simples compromisso com a normalidade de todas as questões supostas dentro da história da Literatura Universal.
A Casa de Etelvina segue o padrão clássico do autor. Blocos de poemas divididos em partes de dez. dez partes de uma poesia densa, concentrada, sem perda de qualquer tipo de palavra. Aqui tudo é ajuizado dentro dos conformes de um mundo estigmatizado pelo fazer poético enxugado das desnecessidades.
Livro de poemas que marca uma espécie de emancipação do autor. Uma tentativa de elaborar uma casa que flutua no ar. Livro altamente imagético.
Na divisão dos blocos, J Humberto Henriques insere desenhos toscos – propositalmente toscos -, aproveitando a facilidade que a tecnologia dos microcomputadores permite fazer.
Esses desenhos insinuam a banda doméstica de uma residência qualquer, colocada em uma rua qualquer e em qualquer cidade do mundo. Dentro dela, a possibilidade de haver uma Etelvina.
Esta mulher com nome já raro no meio dos patronímicos escolhidos em dias hodiernos por aqueles que vão nomear suas crias. Surge esta mulher um tanto quanto sobeja.
De qualquer maneira, tanto poderia ser uma residência cristã oficial, como bem poderia ser um lupanar. Lá dentro, outra vez Etelvina mostra a que veio. Para o leitor que aprecia muito a poesia, não imposta quem ela seja.
Se é uma dama em seda pura ou se é somente uma rameira que esgota os desejos dos homens ou simplesmente atiça as suas possibilidades com um corpo irreal.
A casa que parece ser verde, toda ela estilizada no esquema comum das ruas de um pueblo singelo, demonstra um argumento de que a casa é sempre a maioridade para a vida de qualquer criatura que queira se estabelecer dentro desse universo de fainas urbanas.
Algumas vezes isso chega a ser amargo dentro dos poemas. E obrigatório. Aliás, a casa sempre foi uma das circunstâncias predominantes na obra desse escritor prolífico e grandioso. E com isso, como mesmo não poderia deixar de ser, a organização familiar e as demais consequências de um mundo comum.
Os poemas deixam de ter títulos e passam a ser numerados. Pode ser devido à produção intensiva do poeta. Poderia ser. Entretanto, esse é um argumento pobre quando se trata de se fazer análise literária, mormente a mais quintessencial delas, a que se refere à Poesia.
Desse modo, quando se trata de um criador como é o caso de Henriques, todo cuidado é pouco ao se analisar esse ângulo de sua criação. Quando se crê que está prestes a obliterar a sua criação, surge no cenário um livro novo e pleno de expetativas da mais rara qualidade.
Sendo quintessência da Literatura, a Poesia exige demais de um autor que deseja se fixar no elenco de um país qualquer. Então, o cuidado, o cinzelamento de suas criações.
Aqui, em A Casa de Etelvina, título sui-generis para um livro de poesias, qualquer leitor curioso poderia embarcar numa leitura fascinante. Talvez seja possível um paralelo entre esta casa e aquela outra, A Casa do Faisão Dourado, peça de dramaturgia moderna criada pelo mesmo autor.
Esta peça de teatro, pronta já para ser encenada, trata de uma casa sucinta, um lupanar decididamente, que se exibe dentro de uma evolução muito poética. Mas não é poesia. A curiosidade fica no ar quando se comparam as duas casas.
A de Etelvina é uma moradia de deuses dispersos e que se absorvem na consanguinidade de corpos possíveis. Sendo dessa forma, coxas e seios alteram a paisagem para uma substancia etérea e agradável.
A do Faisão Dourado não é assim, é uma casa com flashes de todo tipo possível de deflagração estética e política, econômica e social, psíquica e introspectiva. A poesia, ao contrário, dispensa tais correlatos. A poesia é única. Quintessência apenas.
Mas isso é somente uma observação para empreiteiros de análise.
Livro para releitura. E para conhecimento dos demais.
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