10 CZARDAS

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Esse livro é magnífico. Mas tem muita história por trás desses biombos e acontecimentos literários. Henriques manteve sempre a sua paixão pelos idiomas que podem ser chamados de exóticos. Na verdade, não há idiomas exóticos, há idiomas encantadores.

E manteve sempre seu amor pelos sítios onde esses idiomas são falados. A Hungria é um desses exemplos clássicos. E é lá onde estão as Czardas. Esses lugares mágicos, regados a um exemplo de silêncio e prece.

Muito ao contrário do que é convencionado para turistas, as Czardas são mostradas para eles como um lugar de muita alegria, dança, pinga e outras sensações de mundo conjuntural, associativo e muito alegre. De fato é. De fato, foi um dia.

Para Humberto Henriques, entretanto, esse espaço tem uma conotação um pouco diferente. Nesse sentido, para que ele tenha chegado a escrever um livro com essas Czardas anunciadas deveriam ser um espectro a mais em sua existência.

Então, a se pensar bem, quais os níveis de conhecimento do universo transplantam palavras assim para a capa de um livro, ou isso não passa de um caso de acaso? Na verdade, a respeito disso, não se fala aqui de análise da obra literária, mas da biografia do autor.

Um dia, disse um conhecido de nossas relações triviais, que estava numa viagem através da Hungria, era o mês de dezembro e a temperatura estava em franco declínio, aí em torno de -8º C. e os corvos estavam muito exaltados naquele dia, uma tarde muito espessa de cinzentos.

Quando os corvos estão assim, o mais certo é que vai nevar com peso de céu revirado. Era a região de Hortobágy, uma planície celestial que existe até para os lados de Debrecen e Esztergom. Estava o dia comum para esse mundo da Hungria. Nada era estranho.

Então, esse conhecido de nossas relações triviais parou em uma Czarda clássica às beiras da estrada, estacionou à sombra desnecessária de umas árvores velhas por ali e entrou. A czarda estava vazia. Não havia ninguém ali.

Então, quando ele procurou toalete par se aliviar, viu uma figura a um canto, calada e com uma garrafa de vinho tinto sobre a mesa. Uma garrafa pela metade e a taça cheia. Esse conhecido creu que havia muita tristeza em um homem estar assim, a beber vinho num lugar tão cinzento.

O que acabara de chegar foi à toalete e quando voltou, deparou-se com a figura de Henriques sentado á mesa, na solidão da czarda. Sentou-se por ali, porém, sem chamar a atenção para a sua pessoa. Henriques folheava um livreto e mantinha seu silêncio. O gorro de pele sobre a mesa.

O homem que estava sentado, Henriques, podia facilmente ser confundido com um alemão em viagem, um austríaco, qualquer criatura assim. Ele conhecia o brasileiro muito bem. Mas deixou que a conversa entre eles não existisse. Deixou que permanecesse tudo do jeito que estava.

O clima de uma czarda é alguma cosia de inefável. Então, o viajante não quis incomodar. Mesmo ficou numa posição que não devia chamar muito a atenção. Até que Henriques pediu um cordeiro assado e outra garrafa de vinho.

Ali era Hortobágy e em Hortobágy, é sabido, muitas vezes alguns arcanjos se arvoram em assentos assim, cadeiras de três séculos, para partir o tempo em fatias. Ele me contou isso, esse amigo comum.

Disse que ficou ali durante umas três horas, na mesma czarda, pediu um copo de vinho também e imitou, um naco de cordeiro assado.

Quando resolveu sair, Henriques foi lá fora, admitiu-se numa esticada de pernas ao longo da ponte de arcos que havia ali e depois voltou a pisar a neve de volta. Ia haver nevasca. Mesmo a viagem estava comprometida. Um perigo avançar. Melhor seria voltar a Hajdu-Samsom.

Mais uma vez o retorno a um nome inconfundível, Czardas da Hungria ou da Ucrânia. Não importa de onde vem esse vendaval aceso e solitário que consagra o peito do poeta a esse mundo mágico. Aqui Humberto Henriques trabalha com a assonância grandiosa da palavra, aquela que se modifica devagar e constrói as paredes e o cerne de um grande poema. Czardas é um livro magnífico, cheio de met

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