TEOFANIA: o reverso da pirâmide (a numinosa zenomaquia)
Por RODRIGO CAVALHEIROSobre o livro
A etimologia da palavra teofania sugere um termo teológico e na língua está enraizada a composição de dois vocábulos gregos que significam a manifestação de Deus em algum lugar, coisa ou pessoa.
A peça teatral Teofania trabalha, em termos metafísicos, com a conceituação do que é o homem e a sua maior criação: Deus.
Tomando a criação como a maior de todas as angústias na vida de todo ser humano, ou seja, sua existência e a consciência que se tem dela, o texto dialoga com a noção mítica da linguagem como manifestação divina permeando o pensamento de diversos autores renomados com a construção de uma narrativa que remete a diversas formas teatrais ao longo de nossa história.
Partimos do conceito de que a verdade se revela (alethéa) nas manifestações em canto e dança com a mnemosyne (memória) pelo poeta-cantor (aedo).
Em nossa poesia, o Corifeu propõe a Zeus o julgamento do Último Homem antes de sua condenação. É um resgate sobre o mito primordial de que a criatura sempre acaba sobrepujando o criador e toma-lhe o poder de forma cruel. A arte imita a vida ou a vida imita a arte? Pouco importa, é claro.
O certo é que o ser humano vive na ilusão, no desequilíbrio das forças do querer e do poder: o ser e o ter. As potências relacionais dicotômicas da psiquê do ego entram em conflito com os limites e as possibilidades de o sujeito cognoscente construir tais relações e de tornar o seu saber comunicável.
Redefinindo o mito original, estabelecemos que Prometeu deu ao Homem o Conhecimento e Pandora a Inteligência, mas que Zeus negou a eles a Sabedoria, até que um cientista cria a Máquina do Pensamento a fim de abarcar a História e criar uma nova Humanidade, recriando o mundo.
Medo, Culpa, Soberba e Vingança rotineiramente nos assombram e versam nossas fantasias, o que talvez explique o motivo da invenção do homem “dar errado”. O ser humano se dissocia em neurose e o povo se auto-destrói.
O prólogo é uma discussão sobre a divindade a partir da teatralidade dos gregos, como se o texto fosse escrito naqueles dias e a partir da Teogonia revisitamos diversas formas dramáticas, temas e autores, como Hesíodo, Homero, Platão, Aristóteles, Descartes, Francis Bacon, Shakespeare e Goethe.
Assim falou Zarathustra, de Nietzche e a filosofia de Hegel ganham destaque no primeiro ato, assim como a psicanálise de Freud se sobressai no segundo e a metafísica de Hawking no epílogo.
Somos os únicos capazes de articular cooperações em massa, e porque acreditamos em mitos existentes apenas na imaginação coletiva. Estamos a dominar o mundo, reinventando a obra de Deus, ou seria melhor dizer reinventando nossa criação Dele?
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