Sobre o livro
Entre memórias desfiadas e confissões tardias, este romance conduz o leitor pelas sessenta e uma separações de Irineu e Dolores, casal que conviveu por sessenta anos e rompeu ao menos uma vez por ano.
Por causa dos escândalos de madrugada e das denúncias dos vizinhos, os policiais chegaram a reservar uma cela para o casal pernoitar. Comemoravam a prisão, pois ali se sentiam menos enjeitados e mais cuidados.
Contanto que não ouvissem apenas as próprias vozes, o ambiente lhes parecia ótimo — afinal, os verdadeiros marginais eram a solidão e o desprezo: criminosos invisíveis, que não se algemam nem se trancam.
O mundo de Irineu resumia-se à Penha, ao botequim da esquina, ao caminhão e a Dolores. Ele não fazia ideia da existência da Europa, dos Estados Unidos, de Minas Gerais, de São Paulo ou mesmo dos bairros distantes.
Se uma bomba nuclear arrasasse tudo, poupando apenas a Penha, sua vida não mudaria um milímetro. Mas veio uma bomba mais devastadora: a morte de Dolores. Foi ela quem o enclausurou na varanda, afundado na fossa das Marianas do desamparo.
Quando terminou a última novela que Dolores acompanhou, Irineu esmoreceu ainda mais. Para ele, aquela trama era um lembrete cruel de que também chegara ao fim o capítulo em que Dolores fora sua parceira de sofá e de desventuras desde a infância.
Quanto mais o mundo se distanciava do tempo em que Dolores conhecera — com estreias de novelas que ela jamais assistiria —, mais Irineu minguava feito um personagem secundário desprezado pelo autor depois que a protagonista encerrou a cena.
Como Irineu, o narradormanteve um romance com uma Dolores. Mas, ao contrário dele, não morou sessenta anos com ela. Somente namorou por quarenta e oito anos, quatro meses e dois dias.
No terreno das coincidências, Irineu e o narrador nadavam de braçada: faziam aniversário na mesma data, assim como ambas Dolores.
Não era só os nomes das companheiras que coincidiam; o narrador também era xará de Irineu, a diferença de idade somava exatos trinta anos, e no dia do enterro doIrineu mais velho completaram trinta anos que seconheceram.
O tempo, senhor da razão, padeiro das ausências, teia que tece o infinito, lembrança que é capaz de gerar donos, feridas, palavras não ditas e grandíssimo filho da puta, fundiu duas vidas numa história.
Este romance ilumina, com ironia e poesia, a força dos pequenos detalhes que atravessam uma vida: o cheiro de naftalina, os retratos virados no aparador, os talismãs acumulados numa estante. Ao final, quando vivos e mortos se confundem na rotina de visitas ao cemitério, o leitor compreende que as separações de Irineu e Dolores são também metáforas das nossas próprias rupturas — e que, até na desgraça, o amor insiste em sobreviver.
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