Um Autor no Redemoinho da Literatura: Guia para Ler José Saramago
Por Luiz Cláudio GuimarãesSobre o livro
Este “Guia para ler José Saramago: um autor no redemoinho da literatura” deve ser tomado como algo mais que um catálogo fiel do legado do único Prêmio Nobel de Literatura da língua “luso-brasileira”.
Ele é o resultado aplicado de uma busca sobre as correlações internas e externas dos romances, pelas quais se estabelece a linha de afinidade temática entre eles e deles com o ethos e o logos que habitam a ficcionalidade, a memorialística e a intencionalidade política presentes nas primeiras crônicas reunidas n’A bagagem do viajante e que terminaram por desaguar no projeto estético intitulado de Manual de pintura e caligrafia, cujo cumprimento evidencia.
Para atingir este resultado, Luiz Cláudio Guimarães, que se declara portador do complexo de Leonardo, um mal que gera em suas vítimas a compulsão pela aprendizagem e a pesquisa, investiu por uma década o motus animi continuus que constitui a essência da facúndia que marca este trabalho investigativo sobre a literatura de José de Souza Saramago (Azinhaga, Colegã, 16.11.1922 – Tías, Lanzarote, 18.06.2010), a ser celebrado por sua precisão, sensibilidade e rara delicadeza.
Diante da perplexidade insuportável fruto da situação na qual o que existia não existiria mais, o autor, antes de atestar o abandono em que teriam sido deixados personagens, leitores e a paisagem de Lisboa após o fatídico desfecho de 18.06.2010, foi ao Chiado e ao Cemitério dos Prazeres, circulou por entre os bustos de Camões e Pessoa, visitou o Castelo de São Jorge, consultou o acervo da Fundação José Saramago no Campo das Cebolas e, recebido com chuva de granizo quando visitava o Mosteiro dos Jerônimos, sentou-se à mesa no multissecular Martinho das Arcadas.
Viu, anotou e tudo leu: entrevistas, poemas, diários, discursos, crônicas, obras de teatro, biografia e, incontáveis vezes, cada um dos romances, comparando-os com tudo o mais de impactante que havia registrado ao longo de sua madura experiência de intelectual poliédrico e atualizado.
Alinhando observação e fantasia, ao revés da expectativa inicial da sua empreitada, veio a sentir-se menos solitário e até gratificado ao concluir que Saramago continua a abraçar Portugal, o Brasil e esse mar imenso que se põe entre eles, e que a sua alma como vontade acumulada ainda habita os seus livros sempre atuais cujos temas são de reconhecida universalidade e, por isso, condenados como ele a serem eternamente terrenos.
Os grandes eixos sinápticos do ir e vir saramaguiano, como a água do mar em movimento depois de Joaquim Sassa, n’A jangada de pedra (1986), ter atirado uma pedra numa praia ao norte de Portugal, têm como primeira referência o Cabo da Roca, no distrito de Sintra, ao norte de Lisboa, o ponto mais ocidental do Continente Europeu, sem porém deixarem de passar pelo Alentejo onde Saramago e a sua obra levantaram-se do chão com os lavradores insurrectos.
O Cabo da Roca é o ponto mais ocidental do Continente Europeu.
Tanto pode ser tomado como aquele em que “a terra acaba e o mar começa”, para os aventureiros que partem, como Camões versejou no Canto III dos Lusíadas; como será aquele em que “o mar termina e a terra espera”, como escreveu Saramago no início do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis: “Aqui o mar se acaba e a terra principia.”; vindo a reverberar no seu final “Aqui o mar se acabou e a terra espera.” Enfim, o guia aponta para que a literatura de Saramago decorre dessa cadeia de movimentos dentro de movimentos, que ora realiza dentro de um ciclo concêntrico de integração, ora parte num grande ciclo de derivação: ” …
a península navega sobre o mar, o mar roda com a terra a que pertence, e a terra vai rodando sobre si mesma, e, enquanto roda sobre si mesma, roda também à volta do sol, e o sol também gira sobre si mesmo, e tudo isto junto vai na direção da tal constelação..” Boa leitura!
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