SETE PORTAS: SETE POSSIBILIDADES

Por ANTONIO FILGUEIRA FORTUNA

Sobre o livro

Vinte anos depois da primeira porta Leonam tinha 45 anos. O cabelo começava a grisalhar nas têmporas, mas o olhar era o mesmo — aquele olhar que media oportunidades onde outros viam muros. Ele não precisava mais medir. O império estava construído.

A Sete Portas era hoje uma das maiores consultorias de inteligência do país, com contratos que iam do governo federal a corporações multinacionais. Mas o departamento secreto da PF ainda era o coração do negócio. Algumas coisas não mudam.

César tinha 45 anos e as mãos ainda calejadas, apesar de não carregar peso há décadas. Era uma cicatriz da origem, uma marca que ele recusava-se a perder. Dirigia a divisão operacional com a mesma disciplina de quem um dia consertou cercas na fazenda.

Tinha mulher, dois filhos, e uma casa no interior para onde fugia todo fim de semana. Tainá tinha 45 anos e continuava sendo a mais rápida. O notebook era novo, mas os dedos voavam sobre o teclado como nos velhos tempos.

Ela tinha virado referência mundial em inteligência de dados, dava palestras em Harvard e em Berlim, mas recusava qualquer convite que caísse numa quinta-feira. Quinta era sagrada. Sofia tinha 45 anos e os olhos verdes continuavam os mesmos.

O cabelo agora era curto, o rosto mais marcado, mas a presença continuava sendo a mesma — ela entrava numa sala e a sala se aquietava. Tinha se tornado a CEO oficial da Sete Portas, a face pública que os outros três nunca quiseram ser.

Era ela quem aparecia nas listas de “mulheres mais poderosas do país”. Ela odiava as listas. Mas entendia que eram parte do jogo.

E Antônio Fortuna tinha 94 anos — mas parecia ter 70.

O tempo finalmente começara a cobrar o que havia adiado por décadas. Os cabelos eram completamente brancos agora, as mãos já não voavam sobre o teclado como antes, e algumas noites ele precisava de uma bengala para atravessar o salão do Meia-Noite. Mas a voz continuava ali.

A voz não tinha envelhecido um dia. E todas as quintas-feiras, há vinte anos, ele estava no piano. CENA 1: A NOITE ESPECIAL Quinta-feira, 22h — Meia-Noite O salão estava lotado. Não era o lote de sempre — as quarenta almas fiéis que enchiam o Meia-Noite havia anos. Estava lotado de verdade.

Cadeiras extras, gente em pé nos cantos, gente na porta. Gente que tinha vindo de outros estados. Gente que tinha vindo de outros países. Não era uma noite qualquer. Era a última noite.

Fortuna tinha anunciado na semana anterior. Aos 94 anos, depois de 70 anos tocando piano, ele ia pendurar as teclas. O Meia-Noite continuaria aberto — os quatro tinham comprado o lugar de Signoretti há quinze anos — mas o piano ficaria em silêncio às quintas.

— Não posso mais — ele disse, com a voz rouca de sempre, quando avisou os quatro. — Os dedos não acompanham mais o que a cabeça quer. E um músico que não consegue tocar o que sente… não tem razão de tocar.

Ninguém chorou na frente dele. Depois, sim.

Agora, na última noite, o salão estava cheio. Gente que nunca tinha ouvido Fortuna ao vivo estava ali. Gente que ouvia todos os discos — os cinco álbuns ao vivo gravados escondido pelos quatro — queria estar presente na despedida.

Os quatro estavam na mesa do canto. A mesma mesa. Vinte anos.

Leonam olhou ao redor. Viu as paredes de tijolo aparente, a iluminação baixa, o veludo bordô nas poltronas que eles mesmos tinham mandado restaurar três vezes. Viu Beto, agora com cabelos brancos, servindo café como sempre. Viu Seu Geraldo, que já não fazia mais segurança — só ficava na porta, sentado, recebendo os antigos.

Viu Sofia ao lado, os olhos verdes marejados. Viu César com as mãos cruzadas sobre a mesa, os dedos batendo um ritmo invisível. Viu Tainá com o notebook fechado — pela primeira vez em vinte anos, Tainá estava com o notebook fechado numa quinta-feira.

— Ele vai tocar o quê? — César perguntou.

— Tudo — Sofia respondeu.

— Tudo? — Tainá arqueou a sobrancelha.

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