O TEMPO NÃO APAGA: Selecione

Por JOSÉ XAVIER DE SOUZA

Sobre o livro

Surpreendido com um convite à chácara da Inês, em pleno sábado, às 8 da noite, o Sr. Guilherme estava ali na hora marcada. Vieram recebê-lo na entrada a Inês e Cassiano, que disseram: – Feliz aniversário, papai!

E ele entrou no salão ornamentado com flores, mesas e toalhas, bebidas e pessoas desconhecidas mas… sorridentes. E, entre drinques, palmas e conversas, parabenizavam-no, com: “Sr. Guilherme, parabéns, felicidades.” “O senhor, não aparenta a idade que tem.

Está novo pra oitenta anos, sabe!” Ele, na verdade não estava entendendo nada. No salão, a brisa da noite entrava por janelões abertos, enquanto algumas músicas remetiam o Sr. Guilherme ao passado.

E ele num terno escuro, camisa branca e uma gravata azul; recebeu uma taça de vinho oferecido pelo garçom. Ao andar pelo salão, avistou um bolo na mesa central com duas velas, e, nelas estavam os números: 8 e 0, que correspondiam à sua idade, 80 anos.

Então, depois de algum tempo, ele saiu da sala e, foi em direção à conhecida área da casa. Ali viu pessoas jovens que conversavam e riam, mas ninguém tomou conhecimento de sua presença. Mesmo assim, fingia estar interessado no que diziam com um sorriso amarelo e movimentos da cabeça.

E, para ser bem social na sua festa, apesar do cansaço do dia, prometera a si mesmo ficar no local até que o último convidado fosse embora. E a festa continuava sem muitas surpresas, e, até com certa monotonia para o aniversariante.

Quando tudo parecia ficar ainda mais monótono, entrou pela porta do salão uma mulher de rara beleza. Vestia-se um vestido preto, deixando à mostra o corpo de uma mulher bem madura. A echarpe de seda, longa e fina compunha o traje e realçava a elegância da bela senhora.

Ela entrou no ambiente, passos a passos, com seus sapatos de saltos altos de cor preta, enquanto Inês, sorrindo, foi ao encontro dela, agradecendo-lhe por ela estar ali naquele tão especial dia. Inês, discretamente, chamou o Sr. Guilherme para vir cumprimentar a bela senhora.

Logo depois, Inês afastou-se dizendo: – desculpem-me, estão me chamando na recepção. Fiquem à vontade. O Sr. Guilherme não entendeu a atitude da filha – deixando-o ali com uma estranha, sem qualquer explicação. A bela senhora, puxando o Sr.

Guilherme para si, deu-lhe um abraço e um beijo no rosto, enquanto sussurrava ao seu ouvido: “Parabéns, ‘Gui!’ – Quanto tempo, hein?!” ‘Gui’! E ele lembrou-se da Inês dizendo no início da festa: “- Papai, meu presente de aniversário ainda vai chegar.

O senhor, hoje vai ter a maior surpresa de sua vida.” Havia muitos anos ninguém o chamava de ‘Gui’. Mas aquele ‘Gui’! sussurrado no seu ouvido!

Aquele abraço, aqueles cabelos roçando sua orelha; aquele hálito feminino; aquela música antiga de Ray Coniff “La mer” tocando; aquela linda mulher, nos seus mais de setenta anos de idade – só podia ser ela! Só podia ser a Maria Teresa, a paixão de sua vida.

Já passara tantas décadas, que ele já havia até esquecido de que, quando era jovem era chamado de ‘Gui’. – Então, é você Maria Teresa?! E ele, por alguns segundos, se viu jovem, apaixonado, dançando com a menina mais linda da cidade.

Sem que sentisse, correspondia ao abraço dela, imprimindo movimento ao corpo, na dança imaginária.

“O que é verdadeiro o tempo não apaga. Apenas eterniza.”

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