Sobre o livro
Prévia: Capítulo I – Vultos na noite
“Deu cento e vinte e sete e quarenta e oito centavos, senhor” falava mecanicamente a atendente da caixa lotérica, para o idoso que estava à sua frente. Ela percebeu o rosto enrugado do senhor se contrair em uma expressão confusa. (1) — Aí eu pagando agora eles já religam minha luz?
— perguntou o senhor. Sua testa suava pelo calor infernal daquela tarde de quarta feira, e o barulho do trânsito lá fora aliado à voz baixa do senhor e a espessura do vidro impossibilitou que a caixa o entendesse. — Desculpa senhor, o que disse? — perguntou ela.
— É que cortaram a minha luz — respondeu o velho esforçando-se para falar um pouco mais alto. — Ó, eu trabalhei mais de quarenta ano, de soli a soli, virando massa. Agora, eu tô com sessenta e oito ano, e minha aposentadoria num dá nem pra pagar os meus remédio direito.
— Ah — respondia a caixa, sem dar muita atenção para o que o senhor dizia. Ela havia chegado às oito da manhã, e não via a hora de dar cinco da tarde.
Estava cansada, e o calor estava demais, e seu filho ainda pequeno, tinha ficado acordado toda a madrugada com febre, ela estava preocupada com a criança. – Senhor, isso cê vai ter que olhar com a companhia de energia – respondia ela olhando para o relógio de pulso.
Eram quatro e quarenta e cinco da tarde, seu turno estava quase no fim, e ela já segurava a bexiga há quase uma hora.
O movimento da lotérica estava muito alto, cheio de idosos, era início do mês, época de sacar as aposentadorias pífias que recebiam, e muitos aproveitavam para pagar as contas de suas casas, que na maioria das vezes, sustentavam sozinhos. — Quarenta e sete ano!
— repetia o velho entregando o dinheiro pelo buraco do vidro. Ela passou as contas na leitora de códigos de barra por duas vezes, apertou o enter e retirou os comprovantes da impressora, grampeando-os nas contas em atraso. — Próximo!
— ela gritou, devolvendo ao velho as contas e o troco, algumas moedas que não somavam três reais. O velho se virou com lentidão, e com passos curtos começou a se retirar do guichê, enquanto o próximo da fila o olhava com impaciência, e a atendente segurava a testa.
Ela teve vontade de mandar o velho andar rápido. – Mereço! – disse virando-se para sua colega ao lado, que riu e bufou. — Pra dentro vovô!
— gritava o homem de capacete de motociclista preto, empunhando um revólver calibre trinta e oito na altura da cabeça, enquanto segurava o senhor pelo braço, empurrando-o com agressividade de volta para dentro da caixa lotérica. — Todo mundo pra dentro, porra!
— gritava o comparsa, também de capacete, mas vermelho, e igualmente armado, do outro lado do estabelecimento para os apostadores que faziam suas fezinhas.
O velho estava sendo empurrado com muita força e velocidade, e acabou tropeçando em si mesmo e caiu sentado, batendo com força no chão, levando o braço do criminoso na queda, o que deixou o bandido possesso. — Caralho, velho de merda!
— Ai — gemeu o velho, ainda tentando segurar no braço do bandido, que deu um tapa tão forte na mão do idoso que suas moedinhas voaram por todos os cantos. — Velho desgraçado!
— gritou, dando uma coronhada em cima da cabeça do velho, que viu com espanto enquanto um fio pastoso e quente de sangue lhe brotava no alto da cabeça e escorria pelo rosto.
A atendente deu um grito de pânico, e gemeu confusa quando sentiu a urina descer pela sua perna, molhando a calça jeans, a cadeira, o tênis e o chão, sentiu um misto de vergonha e preocupação, pensando que àquilo, ter urinado daquele jeito, podia lhe custar o emprego. — Passa o dinheiro porra!
— gritou o de capacete preto, apontando a arma na direção de sua cabeça pelo vidro. Ela não sabia o que fazer, estava em choque e não conseguia parar de tremer olhando para o cano escuro da arma. O outro passou uma sacola plástica de supermercado pelo buraco do vidro. — Enche aí, vagabunda!
— gritou, apontando a arma pelo mesmo buraco.
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