Recife Holográfico: Pontes, Lutos e a Demência Lúcida de Existir

Por Raul Manhães de Castro

Sobre o livro

Este ebook não nasceu para “reunir textos”. Nasceu porque os textos, teimosos, começaram a se reunir em mim, como rios que fingem estar separados, mas acabam se encontrando no mesmo estuário do peito. O que o leitor tem nas mãos é uma travessia.

Não uma linha reta (linha reta nunca entendeu Recife), mas uma deriva: pontes, mangues, pedras, clarões, lutos, ruas, delírios lúcidos, uma fé que não se impõe e uma ciência que, quando é viva, vira cuidado.

Há poemas, prosas, confissões, pequenos evangelhos íntimos e algumas sombras que eu não consegui varrer com a vassoura do dia.

Escrevi a partir do que insiste: o Capibaribe passando por baixo do concreto; a cidade falando por ruídos e silêncios; a infância acendendo vaga-lumes que o cimento tenta expulsar; a morte sentando-se comigo sem cerimônia; a pandemia deixando marcas que não cabem em estatística; o amor, esse excesso, tentando organizar o caos sem virar moralismo.

E Pernambuco, esse holograma: lugar e metáfora, lama e constelação, chão e infinito. Não espere aqui um autor bem-comportado. Eu mesmo me desminto com frequência.

Há horas em que sou pedra, outras em que sou água; às vezes pastor de pensamentos, às vezes cachorro magro latindo no fundo do quintal; às vezes médico, às vezes menino; às vezes um homem que só queria silêncio e, no entanto, escreve como quem precisa respirar.

O leitor perceberá: meu “eu” é múltiplo, mas não por vaidade. É por tentativa. Porque a realidade é grande demais para caber num único tom. Esta coletânea não quer ensinar nada. Quer tocar. Quer oferecer presença.

Se houver alguma “tese”; palavra que me dá alergia, ela é simples: a vida não cabe no definitivo. E o humano é barro com centelha: mistura de queda e claridade.

Por isso volto sempre às pontes: elas não são apenas engenharia, são um jeito de dizer “atravessa”, mesmo quando a água por baixo está escura, mesmo 2 quando o passo falha, mesmo quando a cidade comprime a pedra e a alma pede ar.

Se em algum trecho eu pareço exagerado, peço que o leitor considere: exagero é, muitas vezes, a forma que o coração encontra para não morrer de anemia. E se em algum trecho eu pareço simples demais, é porque a verdade, quando chega, costuma chegar assim: sem adorno, como quem não quer incomodar.

Leitor, entre sem pressa. Caminhe comigo. Não prometo luz o tempo todo. Prometo honestidade: a luz e o limite, a ternura e o abismo, o riso e o luto; tudo misturado, como Recife.

E, se ao final você sentir que alguma coisa em você foi levemente deslocada, um milímetro de consciência, um cisco de compaixão, uma saudade sem nome, então este ebook cumpriu sua tarefa humilde: ser ponte. Raul Manhães de Castro

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