A felicidade dos gafanhotos

Por Paulino Júnior

Sobre o livro

“Labuta do Paulino” foi como batizei o espaço que ocupei, de dezembro de 2014 a julho de 2016, às segundas-feiras no caderno Plural do jornal Notícias do Dia (Florianópolis).

Vale ressaltar que o convite foi consequência direta da repercussão do livro de contos Todo maldito santo dia. E, justamente por isso, questionei minha disposição e aptidão para assumir o posto de cronista titular no periódico.

Embora muitas vezes meu trabalho seja apreciado e até creditado como crônicas, meus estudos e esforços sempre se concentraram na edificação de contos – mais ficção, menos confissão.

E o expediente que pode ser considerado típico da crônica (a explanação subjetiva sobre fatos e eventos) é só mais um artifício que manejo para incrementar a argamassa narrativa.

Porém, a crônica é um gênero de fronteiras elásticas a ponto de anexar registros textuais diversos. Em outras palavras, nem todo texto pode ser conto, mas qualquer texto pode vir a ser crônica, até o conto.

Esse raciocínio me facultou cunhar o álibi perfeito para o papel de cronista na condição de contista. Todavia, uma vez demarcado o território, fui ficando à vontade para também soltar a mão na feitura de crônicas nos moldes (quase) convencionais.

Assim, de peito aberto e na cara de pau, 72 textos foram publicados nos 18 meses da Labuta do Paulino. E quando me dispus a fazer o inventário, decidido pela reunião em livro, comprovei que o material se constituía na melhor das equações mezzo crônicas/mezzo contos.

A reação imediata, depois de constatar a equivalência, foi seccionar o conjunto em duas partes. Na primeira, que seria classificada de EU, estariam os textos estabelecidos nas cercanias da crônica propriamente dita: quem fala é o sujeito empírico. Já na segunda, devidamente nomeada de NÓS, figurariam os textos que avançaram pelo terreno da ficção, onde os personagens (muitas vezes desentranhados das notícias) exprimem suas versões dos fatos.

Porém, ao apartar o médico dos monstros, estaria eu cortando o barato de trafegar na contramão do imediatismo. Então, outorguei ao leitor o poder de decisão se é a personagem ou a personalidade que está se pronunciando. Nessa feita, os textos seguem praticamente na ordem cronológica em que foram publicados no jornal.

E a fim de dar um tempero extra ao bolo de palavras, contei com a gentileza e o talento do parceiro ‘bitinique’ de longa data, o escritor e quadrinista J. R. Bazilista, que criou ilustrações em particular para o livro.

Preciso ainda destacar que concordei em escrever, entusiasmadamente, para um periódico (de ampla circulação e estreitas intenções comerciais) devido ao meu retrógado fascínio pelo texto impresso.

Contudo, tendo em vista o caráter efêmero próprio desse meio de comunicação – e sem aceitar que o destino de meus textos fosse virar estampas exclusivas em agasalho de tainha –, resolvi por reunir estas 50 prosas selecionadas porque acredito que acredito na sobrevida da minha labutaria crônica.

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