Sobre o livro
Essa novela de JH Henriques traduz uma verdadeira obra-prima. A imaginação do autor atinge níveis que poderiam ser chamados de estratosféricos.
Na verdade, os leitores participam de um café da manha com Andy Warhol; mas é como se jantassem com celebridades e famosos; ou como se dormissem ao lado de videntes ou espectros que povoam o imaginário nem tão popular assim.
A linguagem é carregada, intensa, traz a noção de domínio populista e popularesco das coisas e mistura o grande emblema de um dos maiores artistas desse século que passou.
Andy Warhol, tão querendo por Henriques, surge aqui em termos muito além daqueles seus Diários, publicados no ano que passou em língua portuguesa, pela editora L&PM, formato pocket, em dois volumes magistrais.
O fato é que essa novela – ou seria somente um conto -, ou pequeno romance, demonstra que o estado das coisas todas é muito distinto do que poderia se esperar como natural. A realização do entrecho obedece a uma raridade de estilo e de inteligência.
Como o livro foi escrito por um gênio, esse fica relevante à medida que a leitura progride e o leitor acaba sendo alevantado do chão – como se levitasse -, porque a vazão temporal dos fatos não obedece aos cânones do tempo.
Dessa forma, John Ford, Jack London e Bianca Jagger trafegam e têm voz dentro do texto, como se tudo não passasse de uma dimensão onde as criaturas estão a se reencontrar para mais um dia de efemeridade.
Ou é assim ou alguém está sendo muito pujante de loucura. Ou o leitor ou o criador, ou mesmo a ineficácia do tempo em conter essa ação substantiva dessas personagens. Alguém mais afoito poderia se arriscar a dizer que esse breakfast não se conclui como sendo ao lado de Andy Warhol.
Seria mais um café da manhã ao lado de J Humberto Henriques. Isso um dia vai ser dito pelas teses e conformidades da literatura comprada. Ocorre que não é tão simplório assim.
A personificação da história se faz de uma maneira não organizada, de tal maneira fica impune de certas críticas mais superficiais, que cada pedaço da novela precisa de uma análise que foge ao extrativismo corporal do autor.
Sendo assim, esse café da manhã vai muito além da banalidade de um corpo físico.
Entretanto, a desfiguração imposta ao longo do texto das partes temporais e positivistas desse mundo acaba por se abrir como aquelas flores que se abrem quando o sol a elas é imposto.
Há um mergulho profundo em estranhas divindades à medida que o romance se prolonga e entra em seus vórtices atemporais. O leitor deve começar a perceber que o desfecho é magmático.
Porém, esse desfecho magmático tem suas antinomias porque é silencioso e nunca jorra da maneira que seria o ápice de um romance de ações, como aconteceria na Cartuxa de Parma ou em Anna Karenina. A preocupação do autor com esse tipo de condução da obra não existe.
Esse Café com Andy Warhol não passa, na verdade, de mais um ensaio de profundo teor sobre a condição humana, um romance cujo herói é o espelho de si mesmo – quiçá de um empreendimento chamado mundo moderno. É difícil a percepção do todo, a menos que se atenha ao texto de forma aferrada.
Andy Warhol é personificado nesse romance. Nele nada há de biográfico. Tudo é ficção. Se é Andy Warhol quem caminha e voa dentro do romance, é natural que algumas revelações sejam atribuições de uma personagem assim fascinante. O que se afigura, entretanto, é que isso não traz no bojo uma biografia.
E muito menos tem uma função histórica ou apreciativa de fatos quaisquer. Isso é pura ficção e deve ser tratado como tal. Quando se termina a leitura desse livro, a impressão é tão forte que o leitor acaba suspenso na dimensão de inúmeras interrogações. A pop art ficou um pouco para trás.
Há alívio na conjuntura da entrega do fim do livro, como se o mundo depois dele mais se abrisse.
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