Sobre o livro
A psicologia clínica fenomenológica encontra-se numa posição curiosa. Exige-se dela um cuidado rigoroso diante de seus modos de atuação, seja com os pacientes, seja com a contribuição teórica dos fenômenos ali experienciados.
Tanto o contato constante com as mais variadas mostrações do sofrimento quanto a transformação disso para um dizer compreensível e dotado de sentido traz desafios.
Ao mesmo tempo, essa exigência de rigor (que parte da sua recusa de tomar as bases de seu fazer como evidentes) a coloca diante da difícil tarefa de ter de se haver com uma dimensão filosófica que não a pertence por nascimento, mas que precisa ser conquistada de alguma forma.
Daí vemos, a título de exemplo, dois caminhos comuns (os quais eu mesmo já me percebi trilhando): a) o terror diante da filosofia e a sensação de que a lonjura alcançada pelos grandes filósofos é inalcançável; e b) o distanciamento entre o ato de filosofar as questões da existência e a experiência prática relacionada ao modo de lidar com as diversas formas de sofrimento.
A filosofia pode aparecer aparecer nesse contexto, então, como um porto seguro, protegido do front, da angústia incontornável diante do encontro imprevisível.
Este dicionário destina-se primordialmente aos aterrorizados. Dizendo menos dramaticamente, àqueles que, em seus hiatos entre idas e vindas de seus atendimentos, buscam uma consolidação das suas bases fenomenológicas, de maneira que estas possam assentar-se num “solo” minimamente pacificado, liberando o pensamento e a investigação para o campo que lhe diz respeito: o sofrimento e as lidas possíveis com ele.
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