Sobre o livro
Na presente obra, o leitor irá se deparar com a história comum a todo trabalhador brasileiro, que é a necessidade de migrar da sua raiz à cidade grande, isso, em busca da sobrevivência, melhor acesso à educação, até formar família e coisas assim.
Antes de parecer trivial o “andar da carruagem”, há que lembrar sobre a genealogia dos Canários, sobrenome de Baldino, cuja herança espanhola o expõe a festas e comilanças desenfreadas quando da vida plena, deixando de lado a relação afetuosa com a esposa Odelícia Guimarães num casamento que, segundo o autor, não se mantinha por laços afetuosos, isso, em função da recepção, em casa, de um sem-fim de convivas, por dias seguidos.
Além da dependência etílica, seu Sevo – apelido de Baldino para os íntimos – foi tabagista e também conservou, por anos a fio, o gosto irreversível por cheirar rapé.
– Espirrar traz boa energia, expele os humores ruins e limpa as ventas – dizia o bon-vivant, no momento da vida em que o casamento já contava 24 anos de união.
O lar foi mobiliado e decorado ao gosto e estilo da esposa, mas Baldino tinha outros gostos pessoais. Odelícia dedicava-se às compras, em companhia das filhas, horas e dias a fio, bem como reuniões com as amigas e mensagens no aparelho celular.
“Levantava cedo, ouvia pelo seu radinho os noticiários, reality shows policiais, fofocas da vida alheia, os jogos de seu time na semana e campeonato, dentre outros. Quase sempre, eram essas suas companhias no café matinal. A mulher, metida a madame, não tinha hora fixa de acordar.
A vida parecia ter um curso calmo e agradável como o de muitos outros brasileiros”, contam ao leitor os autores João Joaquim/Sandra Rosa, numa escrita como que a fala caseira dos goianos.
Baldino, o personagem central da leitura, passou por problemas de saúde, sempre enfrentando, à sua maneira e virtude, o dia a dia no trabalho, sem um dia de falta, sequer. E “o estado de saúde de seu Baldino recrudescia, e ele mesmo percebia”, relatam os autores João Joaquim/Sandra Rosa, que informam sobre “prescrições novas que foram feitas, mas o paciente não aderiu ao tratamento […] Nada, ninguém o demovia daquele estilo insalubre de viver”.
As dores da doença se apresentavam, assim como a finitude e fragilidade da vida. Baldino pressentia a morte, certeza de que a existência não mais se sustentava nesta vida. E, quando “Baldino ia para a cama, deparava-se com Odelícia sentada à penteadeira, em frente ao espelho do quarto, mexendo no toucador onde guardava os produtos cosméticos e utensílios de rosto, supercílios, sobrancelhas, cabelos”, descrevem os autores.
Numa noite comum de uma vida tocada a farra, fanfarrice e trabalho, isolado da família, mesmo em meio aos entes, “o paciente, seu Sevo, tomou doses sedativas de analgésicos, opioides e hipnóticos, dormiu e não acordou mais”, segundo os autores que procuram, com suas palavras, transformadas na escrita deste livro, retratar a maior certeza da vida, que ela dá oportunidade, mas não dá perdão.
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