PAI INÁCIO: Uma história do Morro do Pai Inácio da Chapadaa Diamantina

Por Jorge Firdauz

Sobre o livro

Criamos formas de “ver” o mundo e a sociedade, criamos formulas conceituais buscando entende-lo, interpretá-lo. Por exemplo, para nós existe o pobre e o rico, o trabalhador, o operário, o casamento, deus, o homem e a mulher, a criança, o ser humano.

Criamos a esperança no futuro e criamos o passado, criamos uma forma de interpretar a vida e acreditamos nesta forma. Damos forma as coisas dentro de nossa imaginação criadora, dentro de nossas possibilidades cognitivas. O mundo existe neste formato que está, porque o concebemos desta forma.

Vejamos por exemplo uma comunidade tribal que nunca teve contato com a nossa forma de conceber o mundo. Faria sentido para esta comunidade a vontade de ir ao espaço? Faria sentido para esta comunidade a existência de pobreza ou riqueza? O que significaria para esta comunidade o conceito de deus?

E os nossos padrões morais? Faria sentido? Eles entenderiam quando falássemos de inveja ou mesmo a dor da morte? Esta comunidade imaginária, certamente não compreenderia porque criamos as cidades e as destruímos com nossas guerras.

A realidade para eles teria uma interpretação completamente diferente da nossa, de acordo com a perspectiva cognitiva deles. Eu me ponho de um lado da história, me ponho ao lado de certa perspectiva.

Ora, isso me coloca próximo a um conjunto de pessoas que também tem a mesma expectativa, que também percebem a realidade dentro deste parâmetro, tenho certeza que não sou o único, afinal, se existe este tipo de ponto de vista, é porque ele foi construído socialmente, embora tenha sido construído como se fosse uma utopia, porque dentro de um espectro cultural predominante que afirma que esta ideia é utópica.

A construção desta utopia ao longo dos milênios, foi se realizando através de mártires, pessoas que nasceram no planeta pregando esta possibilidade: Sócrates, Buda, Jesus, Lao Tsé, Confúcio, Gandhi e tantos outros milhares de reformadores sociais que criaram esta utopia e viveram e morreram com ela.

Criamos mitos, histórias, contos, danças, arte de modo geral alimentando este sonho. São estas pessoas e suas criações que dão margem para a continuidade da existência da utopia. Essas criações compõe o imaginário social, sua subjetividade esperanças e lutas.

Este imaginário tem papel fundamental na existência e perpetuação das utopias e sonhos humanos. Este é o sentido dos mitos, lendas e contos os mais diversos da criação do gênio humano para perpetuação de uma visão de um horizonte cada vez melhor.

Pois bem, neste universo de construções sociais a partir de nosso imaginário, nasceu também, não se sabe onde nem quando, uma história fantástica de um escravo ou ex-escravo que usando de sua astúcia, defronta-se com um poderoso coronel na chapada diamantina e o vence.

Não tornou-se este conto parte do imaginário de uma população que luta pela utopia da igualdade social? Não é o pedaço da história de um povo que armado da palavra oral vai tecendo sua utopia histórica?

Um escravo ou ex-escravo que armado de sua astúcia e amor por uma mulher, vence a arrogância e a prepotência de um grande senhor coronel da Chapada Diamantina. Qual o desejo que os descendentes dos senhores da história de ocupação da Chapada Diamantina têm em relação a esta lenda?

Não teria esta lenda vários desdobramentos caso ela fosse cultuada, divulgada, estudada como forma de resistência em direção a redenção dos habitantes oprimidos da região? Não teria esta utopia força de luta se fosse enraizada no imaginário popular?

A lenda do Pai Inácio, é uma das poucas lendas ou manifestação de resiliência da população da Chapada e por isso, no meu entender, deve ser disseminada nas escolas, universidades, lida e relida, transformada em textos, cinema, teatro e outras manifestações culturais para que a população daqui saiba que aqui existe uma utopia, existe um sonho, uma esperança de termos maior equidade e generosidade no convívio social aqui dentro da Chapada.

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