O Livro dos Mortos / El Libro de los Muertos: ou A Guerra / o La Guerra
Por Charles Borges CasemiroSobre o livro
“Há muito tempo, em uma galáxia de quem pensa em cada átomo, em cada átimo, as galáxias para todos, eu conheci Tetuya Inoue, cuja vida foi dedicada à delicadíssima tarefa de educar e humanizar os jovens e, ao mesmo tempo, à duríssima tarefa de dizer NÃO às guerras e ao uso bélico da energia extraída dos núcleos atômicos.
Foi nesta mesma galáxia, que Tetuya me ofereceu o texto de partida para a composição do poema d’O Livro dos Mortos ou A Guerra, como um valiosíssimo presente, destes que somente são oferecidos por amigos a amigos muito queridos: uma fita cassete, em que se encontra gravado o depoimento de um sobrevivente da II Guerra Mundial, mais especialmente, um sobrevivente da explosão da bomba atômica estadunidense em Hiroshima.
Ouvi incontáveis vezes esta gravação que me foi confiada por Tetuya e, desde a primeira audição, o que ali estava me foi dilacerando, estarrecendo, fazendo com que me sentisse um ser humano derrotado frente ao mundo das máquinas, mundo do positivismo vendido – este aliado ardiloso do mundo dos negócios, para quem um ser humano, como tudo o mais, não passa de mercadoria ou de um punhado de horas de trabalho a serviço da conveniência de poucos.
Das audições, vieram-me, ainda, a vontade e a coragem de transformar o relato de um dos episódios mais trágicos da história contemporânea, em uma paisagem poética robusta, de resistência humanista, discurso de denúncia, que expusesse a guerra como o campo mais baixo das disputas materiais e ideológicas da história do capitalismo, como o campo da catástrofe do caráter humano e do humanismo, como o campo da violência extrema e da alienação total do indivíduo em relação à sua própria existência como ser humano.
Desse modo, o discurso trágico da gravação foi transformado em um memorial contra a violência e contra a desumanidade de todas as guerras orquestradas pelas elites políticas e econômicas do mundo; ao mesmo tempo, foi transformado em poesia que pretende ser um campo de sentidos e de possibilidades para a manifestação da beleza humana, campo de diálogo, de comunhão entre as diferenças, de democracia, de inclusão, do direito humano, enfim, dos caminhos capazes de propiciar ou de resgatar as relações humanas mais positivamente humanas ou, ao menos, de criar espaço para uma voz humanista, para a luta pacifista e para os projetos de educação dos sentidos humanos pela arte, com vistas à garantia do direito humano à vida.
(…) Eis O Livro dos Mortos ou A Guerra: um memorial lírico e poético-narrativo, antiépico, bilingue e imagético, como lição de partilha, em que se supõe a dignidade humana na coletividade e na comunhão; dignidade que se desfaz diante do espelho da guerra, mas se refaz diante da beleza da arte, a partir da (co)laboração no fazer das formas, a partir da fraternidade discursiva, da empatia e da situação de catarse pela qual passamos – estando diante da própria tragédia e da tragédia do outro, estando diante de uma das maiores tragédias humanas: a bomba de Hiroshima – podendo tomar para si o discurso do NÃO à desumanidade, NÃO à desumanidade de todas as guerras, NÃO à desumanidade da II Guerra Mundial e sua rosa atômica, a “[…] rosa de Hiroshima / a rosa hereditária / a rosa radioativa / estúpida e inválida / a rosa com cirrose / a anti-rosa atômica / sem cor sem perfume / sem rosa, sem nada.”1: esta anti-beleza humana que, cultivada, de um lado, por uns poucos “senhores da guerra”, tem sido combatida, com veemência, por outro lado, por tantos amigos da beleza, do sentido e da verdade do ser e existir humano, inclusive, como já o foi, por meu amigo Tetuya Inoue, a quem este poema-partilha é dedicado.” Charles Borges Casemiro
1 Trecho do poema “Rosa de Hiroshima”, do poeta Vinícius de Moraes.
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