Sobre o livro
Há coisas que não deveriam poder ser esquecidas.
Não porque sejam importantes. Mas porque definem o que é real.
Neste mundo, a identidade já não é algo que nasce com o corpo. É algo que se administra, se corrige, se apaga e se reconstrói. Nomes deixam de ser garantias. Passados deixam de ser prova. Memórias deixam de ser verdade.
E quando tudo pode ser reescrito, a única coisa que resta é a dúvida sobre quem está a reescrever.
Mateo Duarte não deveria existir.
Mas existe.
Ou existiu.
Ou ainda está a ser escrito.
Ele cresceu num sistema que nunca o reconheceu completamente. Um sistema onde documentos existem sem origem, onde registos são consistentes sem história, onde pessoas vivem vidas que não conseguem provar.
Durante anos, isso foi apenas ruído.
Até ao dia em que o ruído começou a falar com ele.
Uma fotografia apareceu.
Uma palavra simples virou instrução.
E o passado, que deveria estar morto, começou a mover-se como algo vivo.
O que seguiu não foi uma busca por respostas.
Foi uma perda progressiva de certezas.
Porque quanto mais Mateo se aproxima da verdade, menos claro se torna se há algo a ser descoberto… ou se ele próprio é o mecanismo que impede essa verdade de existir.
No centro de tudo está uma pergunta que ninguém consegue responder sem risco:
O que acontece quando a identidade deixa de ter origem?
E pior ainda:
Quem decide qual versão de ti merece continuar?
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