O Farsante

Por Carolina Patrício

Sobre o livro

Eu me arrependi no instante em que caminhava pelo corredor gelado daquele hotel. Sentia as minhas pernas tremerem de forma involuntária e torcia para que elas não me traíssem e me derrubassem ao chão.

Respirei fundo inalando o cheiro de riqueza que exalava daquelas mobílias e das paredes de gesso que enriqueciam ainda mais aquele local.

Senti um arrepio na espinha quando o homem que caminhava calmamente atrás de mim posicionou a palma da sua mão nas minhas costas me guiando para a porta da suíte presidencial. O girar da maçaneta pareceu durar uma eternidade de segundos.

O meu peito estava paralisado, e eu sentia que poderia desmaiar a qualquer momento. O que deu em mim? O que eu estava pensando? Porque me permiti fazer isso? A troco de quê? Essas eram algumas das perguntas que martelavam em minha cabeça sem parar. Inconsequente – é isso que sou.

O cheiro de luxúria e dinheiro propagou-se à medida que a porta era aberta. A mobília em mogno e o chão em granito transbordavam chiqueza.

As paredes em tom de amarelo envelhecido contrastando com as enormes cortinas em tom de rebu traçavam um ar de requinte ao quarto que por si só já era bastante luxuoso. A cama ao lado direito do quarto possuía cabeceiras em couro de ouro, lençóis que pareciam espuma e enormes travesseiros.

Eu apenas tremia. Sentia a tensão transbordar por gotículas de suor em meus poros. Nada parecia estar em órbita e eu acreditava que a qualquer momento poderia simplesmente apagar. Meus sentidos foram todos retirados de mim e eu apenas estava presente de corpo. Não muito distante da porta, estava ele.

Sentado em uma poltrona de couro preta com uma das pernas cruzadas. Um cigarro repousava nos seus dedos com maestria enquanto a outra mão apoiada no braço da poltrona segurava um copo de vidro com alguma bebida escura. Não houve contacto visual até então.

“Ele chegou.” Me assustei ao ouvir a voz que partia por detrás de mim, anunciando a minha chegada. A porta foi fechada tornando eu e ele os únicos a estarem naquele quarto. Permaneci estático. Os meus olhos repousavam naquela figura esbelta que estava à minha frente.

Ele parecia fitar a parede, dando total insignificância à minha presença. O quarto permanecia em um silêncio perturbador apenas ouvindo-se as batidas descompassadas do meu coração em conjunto com uma música clássica bem baixa que partia de algum canto daquele quarto.

Em um súbito instante vacilei o olhar e olhei para as minhas mãos trêmulas que estavam repousadas ao lado do meu corpo. Eu deveria ter batido a cabeça para me ter colocado nessa situação. Será que há a possibilidade de voltar atrás? Posso sair correndo e contar a verdade?

Será que é tarde demais para isso? Não estou em pleno juízo. Como se estivesse em câmara lenta o seu rosto foi se virando na minha direção, fazendo-me erguer o olhar e o fitar.

As suas maçãs do rosto levemente protuberantes, e o seu maxilar desenhado foram as primeiras características que me fizeram gear. O seu cenho estava franzido o que me fazia desejar sumir dali. Ele piscou levemente os cílios me dando passagem para observar os olhos azuis fuzilantes e profundos.

A mão que segurava o copo foi erguida e levada até à boca, bebericando de leve aquele líquido escuro, enquanto mantinha o olhar fixo em mim. A sua boca abriu-se e eu pude finalmente ouvir a sua voz. “Como te chamas ternura?”

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