Sobre o livro
Mais um dia. Uma rotina no automático tem pontos positivos e negativos. O lado bom? Não preciso nem pensar. Hábitos saudáveis como meditação, leitura e escrita são executados sem maiores deliberações. Acordo e olho para o sofá. Que já serve como gatilho para que sente em silêncio.
As últimas respirações da prática são um gancho para acessar meu Kindle. Devoro diariamente um capítulo exato da obra da vez. Que hoje é “Storyteller”, a fantástica biografia de Dave Grohl, vocalista dos Foo Fighters. Com o período de leitura chegando ao final, algumas ideias já borbulham.
Essas sugerem que o dispositivo eletrônico seja trocado por um analógico. O caderno. É nele que escrevo alguns esboços para canções. Já são quase uma centena de composições que jamais viram a luz do dia. Rabisco algumas palavras sobre o tema “propósito”.
E finalmente vou pro banho, antes de me arrumar para o trabalho. A parte ruim de ter um ritual tão mecânico? Quando está imerso na rotina, não questiona. Nem evolui. A verdade é que a dinâmica militar que preenche as primeiras horas da jornada me impede de olhar pra dentro.
Troco diariamente sensibilidade por produtividade.
A negociação faz sentido quando todo o fluxo descrito antecede horas dedicadas a um ofício que não amo. O curioso é que durante o processo seletivo eu consegui enganar a todo mundo. Inclusive a mim mesmo. Pensei que “trampar” em uma gravadora ia me aproximar dos meus sonhos.
Afinal, sempre quis ser músico. Foi essa narrativa que vendi para meus superiores nas entrevistas iniciais. Acreditei nela. Eles também. Na prática? Após cinco anos na organização? Me sinto como no belo filme de Wim Wenders “Tão Longe, Tão Perto”.
Tenho contato diário com meus ídolos da indústria fonográfica. E ingressos grátis para todos os shows que possa imaginar. O problema? Eu não quero estar nos bastidores. Quero preencher o palco. Não quero decorar os versos de uma música composta por outra pessoa.
Quero que cantem as minhas composições. Imagine abrir os olhos e ser inundado por esses sentimentos? Por isso, me mantenho ocupado. Seja enquanto os primeiros raios de sol entram em meu quarto… Ou ao longo do resto do dia. Sei que estou fugindo. É o melhor que posso fazer nesse momento.
Varrer a poeira pra debaixo do tapete. Com medo de que um dia ela se torne um monstro. E venha correndo atrás de mim. Outro recurso que me ajuda na fuga: Velocidade. Quando estou imerso em pensamentos sabotadores? Subo na minha bike. E pedalo como um homem possuído. Com direito a músicas nos ouvidos.
A combinação vento no rosto e volume nos tímpanos exorciza meus mais cruéis demônios. Recorro a ela agora, a caminho do “job”. São exatos 30 minutos até o escritório. Que me proporcionam em média 7 canções. Que sempre são as mesmas. Tenho uma playlist chamada “The Seven”.
Com esse exato número das faixas que mais amo em todo mundo. Agora se você me dá licença, a primeira acabou de começar a tocar.
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