Sobre o livro
Uma velha vitrola tocava um daqueles discos antigos, enchendo o ambiente da casa com uma nostálgica música italiana: Funiculí, Funiculá! Na capa do disco, lia-se: ‘Com carinho, Álvaro’.
Entre tantas tralhas, havia um antigo baú — empoeirado, desgastado pelo tempo, repleto de revistas, cadernos e lembranças que haviam pertencido à vovó, falecida poucos meses antes.
Mas, entre os muitos itens esquecidos pelo tempo dentro do baú, algo se destacava: um caderno, parecido com aqueles antigos de receitas. Na verdade, havia mais de um. No entanto, um deles logo chamou a atenção — era maior, bem encadernado, cuidadosamente preservado.
Acondicionado em um envelope com lacre, como se aguardasse o momento certo para ser redescoberto. A capa e as páginas internas traziam adesivos colados com esmero, como se carregassem significados ocultos.
Ficava claro: não era um simples caderno, mas um diário — espontâneo, reflexivo, e, de algum modo, ainda vivo. As primeiras páginas traziam anotações datadas, frases soltas, reflexões intensas, às vezes emocionadas.
Havia desenhos delicados nas margens, grifos feitos com lápis de cor, trechos destacados com marcadores envelhecidos. Aos poucos, fui percebendo que aquele diário contava uma história. Ou melhor, revelava um encontro — entre quem escreveu e quem viveu.
E foi assim que conheci o professor Álvaro Colaciolo. Mesmo sem nunca o ter visto, passei a enxergá-lo pelas palavras de Geraldine Med. Ela não narrava apenas os fatos; ela escutava com a alma e escrevia com o coração.
O diário era um registro íntimo e profundo, entrelaçado de humanidade, espiritualidade e saudade. Percebi que aquele diário continha algo íntimo. Compreendi que não podia deixar aquelas páginas se perderem. Elas pediam voz. A voz pedia ouvidos. Elas pediam passagem.
A delicadeza da caligrafia, os adesivos colados, escolhidos com cuidado, o modo como cada página estava organizada. Aquilo era história. Era memória viva. Conforme fui lendo — de forma quase clandestina, na calada da noite, em silêncio — percebi que aquelas palavras haviam me escolhido.
Como se Geraldine Med e o professor Álvaro tivessem atravessado o tempo para que eu pudesse dar continuidade ao que eles começaram. A partir daquele momento, minha relação com o diário mudou. Não era mais apenas uma descoberta curiosa no meio da mudança. Era um chamado.
Um convite silencioso para mergulhar em uma história profunda, cheia de dores, fé, despedidas e recomeços. Senti que tinha uma missão: transformar aquele diário inacabado em um livro, com o máximo de respeito e fidelidade.
Não para mim, mas por eles — o professor Álvaro, Geraldine e todos que, de alguma forma, forem tocados por essa narrativa.
Assim nasceu O Diário de Geraldine Med — a partir de um caderno de anotações, um diário, que Geraldine havia concebido como um livro, intitulado A Passagem, mas que, por conta do AVC, nunca chegou a publicar.
Nele, ela relata a impressionante vivência sobrenatural de seu cliente, o professor Álvaro Colaciolo. Cada página, desde as dedicatórias ao ponto final, foi transcrita com cuidado e respeito, buscando preservar ao máximo a essência original — tudo aquilo que foi vivido, sentido e compartilhado.
As poucas adequações feitas serviram apenas para oferecer maior clareza e fluidez à leitura, sem jamais comprometer a autenticidade e a profundidade da experiência. Hoje, ao ver este livro pronto, compreendo que não o escrevi sozinha. Fui apenas o elo entre quem viveu e quem agora vai ler.
Que este livro toque você como me tocou e, antes de mim, à Geraldine Med. Que provoque reflexão, acolha sua dor e, quem sabe, desperte também em você o desejo de não deixar sua história se perder.
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