Eco Molhado vis Vidro Moído

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Esse é um livro de poesia magmático. Um livro sonoro, arquetípico. Todos os poemas são trabalhados com esmero de cinzel. O artífice – o poeta -, tomando o seu único instrumento, a palavra, faz dela um instrumento de estética impressionante.

O título, ele próprio, já traz essa navegação absurda de um conjunto de palavras que parecem não fazer sentido. Esse confronto de um eco molhado diante do Vidro Moído, tudo indicando que essa imagem distribui-se de forma continuada num eterno desmancha e faz imposto pelo verso.

Assim disse no prefácio, Rosalice de Almeida – Rede Minas de Televisão, sobre esse livro quando ele foi lançado pela primeira vez. As palavras da repórter parecem resumir a identidade do compêndio.

Eco Molhado vis Vidro Moído faz parte de um duplo volume que somente não é apresentado de uma única vez devido à densidade da tessitura da obra. Os textos sofrem de um movimento permanente, de uma sensação de implosão que não cede entre uma página e outra.

São letras pensadas, condensadas dentro de uma extrema contração de elementos, a tal ponto que a exigência estética do formato do texto ser essencial. Senão, a perda do conteúdo parece ser inevitável. Mas a forma, que parece ser livre em demasia, confere ao conjunto uma a leveza de pouca dúvida.

Um livro inestimável, pleno, consciente.

A construção dos poemas nesse livro, Eco Molhado Vis Vidro Moído, bem como em seu antípoda ou imagem espelhada, uns poemas pares em um livro e ímpares em outro, Vis Eco Moído, pela primeira vez na poética de JH Henriques exige a formatação na página em branco de uma maneira muito diversa da anterior.

Os tipos devem ser colocados em formatação exigida pelo poema. O tamanho da letra, igual modo. A dança das palavras sugerindo imagens sobre a textura da poesia. Isso denota a certeza da influência da informática sobre esse construtivismo que tende a se acelerar.

Os poemas são enxutos, condensados, alguns deles trazendo a imagem do concretismo, mas de uma maneira muito pessoal, ao estilo de JH Henriques. Essa mistura concreta com o lirismo próprio do autor parece trazer um ar de renovação e gratidão à poesia brasileira.

Esse parece ser o primeiro livro em que Henriques se habilita a trazer à baila esse tipo de decisão poética, numa época em que Guido Bilharinho militava no sentido de dar mais consistência à poesia, partindo de Uberaba, no Triângulo Mineiro.

Assim é essa construção poética, cheia de revelações e surpresas, já que o poeta não se prende a nenhum tipo de tema. As poesias surgem como se fossem retiradas de um disco de Newton, cada uma sendo responsável pelo seu próprio impacto.

De tal sorte que o livro não cansa nunca, ao contrário do seria o comentário dos não-versados em poética, aqui se espalha a grandeza da satisfação da leitura e da releitura, principalmente naqueles poemas cuja identidade já se espessa diante de uma espécie de neoconcretismo estabilizado pelos recursos da informática.

Com isso, a forma desliza de maneira lisa pela página e as imagens se revolvem, dando a impressão de que um poema sempre está inacabado e exige a presença de um seu sucedâneo.

A sequência do projeto que será considerado perfeito à medida que se alia isso à palavra do poema usual, aquele que faz dos versos e das palavras a sua maior confabulação.

Ajuntado ao seu antípoda, Vis Eco Moído, esse compêndio se complementa. Como Yin e Yang, os pares e ímpares formam um só livro. Todavia, são separados para seu propósito literário.

Quando se observa que os poemas construídos sob a égide do movimento constante fazem um efeito magnífico, é de se esperar que isso não cesse em nenhum momento dentro do texto.

Mesmo algumas vezes o texto sofre de exclusão momentânea para dar lugar aos tipos de letras que podem impressionar a página e levar o leitor a estava ilusão perfeccionista de que a Arte é sempre um sinal de integridade da Estética.

Diante disso, o livro parece ser genuinamente o esboço de um escritor incomparável.

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