O Empalhador de Cisternas

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Reerguer um crocró de galinha andando em roda do ninho, na invenção do choco. Inventar um adjetivo craspo para a casca grossa da goiaba. E para os finalmentes, crer que o epônimo Gumercindo não é um guincho de porco atacado com chuço fino. Dos meus prefácios eu mesmo cuido.

Gosto muito do sem proveito. Eu ajudo a empalhar cisternas. Eu andarilho o sinal das horas. Mostro um jeito de atrapalhar. Assim, ninguém me cobra mais serviço. Planto Poesia em cerne e inverso. Ajudo na desinformação de um prelúdio. Ajudo na decoada do perdido. Rendas.

(fragmento do primeiro prefácio de O Empalhador de Cisternas.)

Como se fosse mesmo possível se empalhar uma cisterna, Henriques faz desse motivo a reinvenção de uma poesia magistral. O próprio título do livro, retirado da banda abissal do absurdo, já traduz o espetáculo formidável que se apresenta aos olhos do leitor. É uma poesia bastante, flexível, sonora, cheia de aliterações entre o sentimento mais puro e a capacidade de condensar a palavra ao seu máximo, entretanto, sem dela retirar o magma.

Esse compêndio de poesias de Henriques talvez seja um de seus escritos em verso mais líricos. A simples observação do texto não possibilita realizar essa certeza. Porém, quando visto com maior agudeza e profundidade, o livro acaba por escancarar a sua mais apurada lírica.

Por ser um maestro nesse tipo de apresentação poética, o autor conseguir navega nesse mar de música e arpejos com uma facilidade espantosa.

Quando se imagina ou se pensa que as imagens esgotam-se com o avanço do verso, eis que ressurge uma novidade carregada de impacto, o que possibilidade novo riso e luz na poesia.

O Empalhador de Cisternas faz parte de uma liberação poética extraordinária do autor. Henriques vem ligado de forma firme ao seu livro anterior, o Cangalha. Cangalha foi um romance premiadíssimo logo quando exposto ao público. Recebeu dois prêmios literários de peso para a categoria romance.

De repente, a prosa dá lugar a uma poesia cheia de níveis complexos. O que antes era mais comprometedor com a solidez de uma literatura vigorosa, de repente se dá ao lirismo descomedido.

Um lirismo recheado de imagens que vão muito além de uma linguagem poética que poderia ser chamada de convencional. Trata-se de uma travessia onírica do mundo colorido dos sonhos feito por personagens que poderiam ser chamados de pouco convencionais.

O autor trabalha aqui com as sobras, com as perdas chamadas de próprias de uma sociedade de consumo alicerçada em moldes convencionais. A partir daí, a poesia deslancha.

E deslancha com uma leveza muito grande.

Ao modo de Lezama Lima, apesar de aqui o recurso ser muito mais complacente com relação ao todo, o autor se comove com as perdas e utiliza mesmo andarilhos que dão conta de observar um ângulo diverso da terra por onde se pode caminhar de forma impune e sem quaisquer cobranças.

É uma busca por coisas inoperantes, ao modo mesmo de outros livros do autor, alguns que viriam de uma produção posterior. A busca pelo inútil e que revigora a imagem e a forma de certos objetos, dando ao homem a possibilidade da renovação das suas palavras.

Essa busca de certo primitivismo reduz algumas ideias simples da literatura ao estado de inocência das coisas.

Se as coisas podem ser inocentes e inúteis, um estado naïve de tudo que se pode imaginar, também deve ser deduzido que o homem faça parte desse estado unitário e infantil de um mundo crepuscular.

Quando se diz aqui infantil, não no sentido de se crer que esta poesia possa ser perecível ou primária, mas apenas no âmbito de ser ver que tudo pode confluir para um mundo espectral de o homem saber como se afazer ao nada em sua integralidade maior.

Já que estamos a trabalhar com coisas, objetos e seus valores, pode ser que um estrato quântico de mundo faça parte dessa poesia que renasce sempre de suas verdadeiras concepções de existência e solidez.

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