Língua–Línguas

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Nenhum título poderia ser mais apropriado a esse livro do que esse que está aí posto. Língua-Línguas é um livro livre de toda e qualquer alienação gramatical. Por isso mesmo, o exagero nos neologismos e na forma de dizer cerros termos. Por exemplo, como diriam os normais, o peixe.

O peixe com seu artigo definido muito bem posicionado e nada fora dos eixos. Já no Norte de Minas Gerais, essa região toda acima de Januária, Itacarambi, Manga, os homens quando estão diante de um peixe grande que apanharam na última pescaria, dizem que é a peixa. A peixa para cá, a peixa para acolá.

Esse modo de adoçar a fala é muito particular e vem das memórias dos negros e dos índios.

Uma vez lançada a palavra entre os brancos, já de si todos mesclados de ideias, de pele e de genes, de dotes e rituais religiosos, a palavra agrada e fica como um pergaminho que não sofre mais de mudança, por mais que alguma cartilha seja sugerida na escola.

Os contos foram todos escritos durante a permanência de José Humberto Henriques na Reserva Indígena Xacriabá, no Norte do estado de Minas Gerais, época da sua preparação do mestrado em Clínica Médica, pela Universidade de São Paulo.

Os contos mostram como são alguns acontecimentos peculiares nessa terra de tradições e grande fascínio. Por isso mesmo, ajuntados ao romance de esma época e lavra, o Xacriabá, esses dois livros compõem o estadiamento do autor nessa região.

Segundo ele diz, foi um tempo promissor ao lado do finado Cacique Rodrigão – que era vereador e muito bem votado em São João das Missões – e do pajé Emílio. É com glórias nos olhos que o escritor fala desse tempo.

Pois que, fora parar nesse fim de mundo, como diriam alguns, com a associação ao Doutor Aluísio Rosa Prata, homem se saudosa memória. Outra vertente era composta pelo doutor João Carlos Pinto Dias, filho do grande Emanuel Dias.

Esse era presidente da FNS – Fundação Nacional de Saúde – por ocasião da permanência do romancista, contista e poeta dentro da Reserva Indígena Xacriabá, devidamente delimitada e funcionando lá com suas particularidades e rituais de alegrias e sofrimentos.

A minha cozinheira lá na reserva era a Das Dores, diz com saudosismo o escritor. O trabalho de J Humberto Henriques na reserva fora aquele de coletar dados clínicos para um projeto de pesquisa. Íamos estudar hipertensão arterial, muito comum naquela população.

E outros eventuais desvios de complexidade bioquímica. Era isso o proposto e o pressuposto. Esse foi o primeiro braço da pesquisa.

Houve um intervalo entre o primeiro e o segundo. Ia longa já a permanência do pesquisador entre os homens que viviam na reserva. Ia longa.

Ele voltou à chamada civilização, abasteceu-se de livros, trocou a fita da máquina Olivetti, velha e desgastada, cambaia mesmo, adquiriu papel para a máquina e retorno com esse abastecimento ao mundo Xacriabá. Não havia ainda a disponibilidade dos microcomputadores.

Por isso, surgiram somente dois ou três livros dessa estadia.

Além do mais, conta Henriques, as tardes todas eram dedicadas à pesca de peixes miúdos num lago, uma represa que a antiga SUDENE fez naquela região da reserva e que fazia divisa com o Virgínio, um mundo marginal e seco e que não tem nada que ver com a reserva.

É um mundo à parte e que já oscila para liberdades outras. Um mundo civil e que aponta para a direção do estado da Bahia, ali quase rente.

Então, isto aqui dito não reúne e sequer resume qualquer tipo de análise literária para um livro magnífico como é Língua-Línguas. Um volume auspicioso, autentico e muito particular. Na Literatura Brasileira – mesmo na Universal – não há nada que se equivalha a um livro assim.

Tanto a forma da escrita quanto a amplitude do assunto. Aqui se pode perceber com forma cristalina, a transparência, com que argúcia J Humberto Henriques mostra com essas possíveis populações marginais se estabelecem dentro da terra e sobre ela. É um livro impagável. Um livro documental, inclusive.

Porém, deixa o autor que o próprio leitor se

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