Assim como são os homens são as criaturas

Por G. M. DHOSS

Sobre o livro

A natureza do homem foi objeto de diversos estudos por inúmeros filósofos, dentre os quais Hobbes, Rousseau, Santo Agostinho e Nietzsche. Para Hobbes, o homem já nasce mau e precisa de um estado autoritário que dite as regras.

Jean Jacques Rousseau, por sua vez, defendia que o homem é bom por natureza, mas a sociedade o corrompe. Santo Agostinho defendia a tese de que o homem é essencialmente bom, vez que criado à imagem e semelhança do seu Criador.

Nietzsche, por sua vez, defendia a tese de que nada é objetivamente bom e tampouco mau.

Mas afinal, o homem é bom ou mau? Que diabos o homem é?

Na literatura policial não são poucas as histórias reais de crimes praticados com tamanhos requintes de crueldade que nem os mais renomados escritores de livros de terror seriam capazes de imaginar. Nem King. Sim, o homem pode ser aterrorizador tanto quanto os piores demônios que habitam a escuridão. Estariam estes homens possuídos por demônios ou assim como são os homens são as criaturas?

E afinal, o homem é bom, o homem é mau ou é os dois?

No conto título desta obra, o demônio emergiu do inferno para cobrar a fatura daqueles que eram tão diabólicos como o próprio Lúcifer. Ao entregar sua alma para o Satanás, Nicoleta, a Velha, como era conhecida por seus netos gananciosos, prometeu a alma de todos aqueles que queriam sua morte para se apropriarem de sua fortuna. E quando chegou o dia deles, não houve reza “braba” que os salvasse.

“A velha a encarrou, mas ela notou naquele olhar a própria encarnação do satanás. Entendeu. Todos iriam morrer. Mas quando? Seria naquela tarde ensolarada?”

“O infeliz estava ficando roxo. Esticava o pescoço, abria os braços, inclinava—se e, num determinado momento, seu olhar se encontrou como da Velha. A boca da jararaca estava levemente aberta, num rictus de prazer.”

“A certa altura, retornando do banheiro, a bexiga devidamente esvaziada, o braço coçou. De súbito, tudo comichava, desde a sola dos pés ao couro cabeludo. Daciana não sabia onde passava as unhas postiças primeiro. Coçava—se e se remexia como uma cobra em disparada.

O marido, Skender, deparando—se com a cena, vislumbrou que a mulher também seria possuída pelo demônio, como sucedeu com Vasilica. Ela se remexia, coçava o couro cabeludo, corria as mãos para os pés, em seguida para os braços, barriga, bunda, orelhas, os olhos.

Contorcia—se como se o demônio a estivesse possuído. Chapada, segurou—se numa das mesas para não se estrebuchar no chão. O corpo, todavia, cobrava que usasse as duas mãos para combater a urticária. Sentou—se numa cadeira, mas a desgraça da bunda também coçava.

Para desgraçar mais, a perereca coçou lá dentro e não bastasse isso, o ânus pinicava numa intensidade elevada ao cubo. Desesperada, correu para o banheiro, sob os olhos curiosos dos parentes. A velha a encarava furtivamente. Seus olhos se cruzaram. O marido correu atrás.

Batia na porta, enquanto ouvia a mulher desesperada.”

“Entre um coice e outro, Skender passava os olhos pela Velha, sentindo o peso das mãos dela naquela excentricidade diabólica. Gavril entrou, Skender rodopiou, girou o corpo num movimento de 360 graus e coiceou o intruso. Gavril se desiquilibrou, saiu catando cavaco, os braços batendo como um pássaro sem penas nas asas, parando quando se chocou com uma das mesas de aço.”

“Vasilica mal teve tempo de ver o bode velho e a Velha sobre ele, gargalhando como umas bruxas, os olhos vermelhos como sangue, quando uma sugada violenta os arrastou para debaixo d’água. Sentiram suas pernas entrelaçadas, sugadas com força para o ralo.

Mal tiveram tempo de gritar um “Meu Deus” e seus corpos estavam no inferno, ao lado dos de Gavril, Skender, Vrignia e Wadin. O que sobrou deles não passava de uma maria mole de sangue, ossos moídos, merda, água e hipoclorito de sódio.”

“— O satanás vem nos buscar? Ionela e Daciana se benzeram. — Vira essa boca para lá!”

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