Tempo da festa x tempo do trabalho: carnavalização na belle époque tropical

Por Dilmar Miranda

Sobre o livro

No choque entre a Norma e a Festa, esta revela momentos especiais para os segmentos populares quando seus participantes imergem numa onda de liberdade utópico-ucrônica.

Mais do que a suspensão da vida ordinária (Bakhtin), a festa representa o desejo de uma vida outra expressa na ludicidade transgressora contra o mundo da norma. É quando o outsider busca se apossar do seu sentido.

Na luta pela sua hegemonia, setores populares buscam realocar suas intenções na perspectiva da afirmação de desejos utópicos-ucrônicos.

Destaca-se entre nós, desde o Brasil Colônia, a festa barroca luso-cristã, com boa acolhida no seio das práticas afro-populares, com apropriações e sentidos transgressivos, devido à intenção carnavalizante que nela se incorpora.

Manifestação lúdica e cívico-religiosa do pacto entre a fé e a lei, ela expressa um evento do poder que buscava selar a união da Igreja da Contrarreforma com o Estado absolutista luso.

Mas, à sua revelia, representou momentos preciosos quando setores populares a redirecionam, provocando constantes tensões, latentes ou manifestas, com a Igreja.

A resposta popular era “”o riso, a substituição da exaltação religiosa por outra, profana, o detrimento de personagens clericais e a busca de brechas para subverter a ordem”” (Priore).

Tal embate irá provocar o adensamento transgressivo efetivado na carnavalização típica de várias práticas afro-luso-brasileiras, sobretudo na virada do século XX. É desta festa que nos dedicamos em especial a analisar.

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