RANCHO FUNDO

Por José Afonso Barbosa

Sobre o livro

É-se presenteado todo o público leitor por mais uma obra escrita de autoria e vivência do escritor José Afonso Barbosa. Muito já se conhece de seus trabalhos, ora de historiador, ora de poeta, agora de prosa poética, em romance de ficção, e com a voz do meio rural.

A rotina, as relações familiares, de vizinhanças ao derredor do povoado do Rochedo – centro comercial no qual se convergiam os fatos marcantes daquela região: casamentos, batizados, velórios, delegacia, comércio de secos e molhados.

Local em que os acontecimentos eram compartilhados em velocidade relâmpago. Famílias numerosas e numerosos prazeres e iguais problemas.

Nessa partilha natural dos acontecimentos do cotidiano, o autor conseguiu compilar, em capítulos que se traduzem em verdadeiros contos, por vezes trágicos, outras vezes solidários, ainda hilários, mas mostra real da vida no campo e as relações de poder dentro da relação familiar, notadamente a supremacia masculina e patriarcal.

O tempo remonta as décadas de 50, 60 e alcança a de 70 do século passado.

Na rotina da vida rural, há vários costumes que se tornam ritualísticos na sua forma de execução: a criação de frangos e a sua comercialização, o plantio da roça, agricultura de subsistência da família (“Quando a roça de toco ficava velha e seus troncos iam apodrecendo, fazia-se a destoca, enfileirava, punha fogo, depois vinha com o arado a cavalo ou de boi e arava a terra, plantava os grãos, arroz, milho, feijão, com a plantadeira a cavalo, ou a matraca manual, quem não tinha nenhum dos dois, semeava a mão[…]” ; a lide com o gado e o transporte por meio do carro-de-bois) Rochedo, Canadá, Remanso, Mineiro, Preto Baio, Roxo Lírio – cognomes próprios da vida rural.

A junta de cabeçalho: Chico Mulato e Serrania. Esses costumes vêm resgatados, minuciosamente, registrados nas páginas do Rancho Fundo. No serviço de moagem da cana-de-açúcar, registra-se “Mês de junho. Faz um frio de rachar. Chega a doer os ossos. Em toda a redondeza da Bocaina cai geada.

[…] São três horas da manhã.

Saulo já foi ao pasto, ,pegou a junta de bois, Serra Grande e Ventania, cangou-os, colocou o cambão, trouxe-os para o pátio do engenho, engatou-os na almanjarra da balança que roda as moendas do engenho […]” As doenças, na maioria das situações, eram tratadas com ervas e remédios de uso de animais: “Mãe, não se esquece de levar a creolina para passar no meu unheiro do pé.

Está muito doído. Lateja demais. Chega doer no peito.” Interessante estar em contato com o resgate da linguagem e dos costumes do homem do campo, sertanejo que arranca força do próprio corpo e das mãos calejadas para o sustento da sua família.

Temos, além da criação em forma de romance, o registro ideal do cotidiano da vida rural de um período marcado pelo trabalho causticante, embora prazeroso, porque se transformava em um meio de sobrevivência e cultivo de relações familiares e de vizinhos em que dialoga com a sinceridade de intenção e frutífera vida comunitária.

Cleusa Marina Silva Freitas Professora de Língua Portuguesa Acadêmica da AML

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