Sobre o livro
Malba Tahan Senhor de Valença era um homem bom.
Condoía-se dos desafortunados, amava com amor verdadeiro, e passou todas as suas estações tentando interagir, coexistir no mundo dos primatas considerados lúcidos, questionando Deus, brigando com seus monstros acardíacos, entregue ao desespero de elucidar os desvarios de sua alma tormentória.
Era um enfermeiro dedicado, tratava os pacientes sob sua tutela com fraternidade, era educado e complacente com seus subalternos, solicito com seus alternos. O furor de sua alma o desterrou, impulsionando-o a um mundo triste, doloroso, aterrador, conquanto encantado.
Alhures, Malba Tahan, também sociólogo, descortinou a magia da liberdade lúdica, insensível à comoção que causou àqueles que o amavam de todo coração. Sua biógrafa (a Vida) sabe que Mlabas Tahans existem aos milhares.
Extraordinariamente há um em cada esquina do tempo, em destaque aos demais humanos, feliz à maneira do seu destino insólito.
*** Sua comoção era uma prova de como voltava para trás, para a idade do fogo e até às primeiras origens, na idade do urro.” (Jack London)
*** “Malba Tahan parou, deu meia volta procurando a saída do hospital, dirigiu-se à calçada e se pôs a andar à esmo. Andou, andou, andou.
Sentiu a pele quente e rubra, e riu, dançou, gargalhou, e pisou em poças d’água, e assobiou, e conversou com cães vira-latas, cumprimentou pessoas que nunca vira na vida, urrou. Enfim, fez tudo aquilo que só crianças podem fazer e apenas os loucos possuem a supremacia de imitá-las.
Deveras que Malba Tahan ultrapassara os limites dos seus tormentos e surtara maravilhas. Agora flanava leve como um beija-flor, voejava como um menino arteiro pelos campos, pelos prados.
Cantava feliz, infantil e indiferente aos direitos e deveres da cidadania, ao clamejar das guerras, à comoção da morte, imune às dores das enfermidades, insensível aos urros das entranhas famélicas.
A arte de enlouquecer volveu seu espírito ao mundo das ilusões, aos cantares lúdicos, no tempo em que viver era simplesmente viver; na idade da lenda. Naquele longevo tempo ele habitava numa ilha e era protegido por águas amnióticas.
As pessoas olhavam-no curiosas, algumas se esquivando, outras temerosas, outras zombando. Roubaram-lhe o casaco, a maleta, todo seu ouro. As suas roupas brancas foram ficando sujas, esfarrapadas. Meio mês depois dirigiu-se à Via Dutra onde seguiu margeando a estrada.
Parou em várias cidades, sempre retomando o caminho à frente. Andou, como andou! Em exatos oito meses chegou ao sopé do Corcovado. Sua surpresa foi avassaladora. Ao descobri que surtara após ter murmurado ao inferno com tudo e todos e que transcendera à ilusão, Malba Tahan cambaleou.
Para não cair recostou-se a um poste de iluminação. Barrabás! Como ele fora parar ali? Procurando por resquícios de si outrora, descobriu que suas roupas brancas impecáveis haviam sumido do seu corpo e vestia roupas escuras, mal ajambradas e imundas. E como cheirava mal!”
*** “Malba Tahan, fascinado com sua metamorfose, notou que carregava uma ordinária sacola de feira com farrapos. Inacreditável!
O outrora bonito, elegante, asseadíssimo e envaidecido enfermeiro-sociológo, que os pacientes confundiam com um médico, sempre de roupas brancas impecáveis, uma corrente de ouro com crucifixo aparecendo sob a camisa de seda, usando uma aliança de casamento e seu anel de formatura, maquiara-se em pária da sociedade.
Estuporado, com as emoções ascendidas aos píncaros da eternidade, Malba Tahan gargalhou, gargalhou que chorou, chorou que desmaiou. Quando voltou a si alguns minutos depois percebeu que ninguém o socorrera. Jazia no mesmo local onde seu corpo caíra da própria altura.
Esparramado na sarjeta confabulou consigo que ao menos ele sobrevivera até ali, sabe-se lá como. Sabe-se lá como enfrentara os dias gélidos, sabe-se lá como satisfizera o estômago, sabe-se lá onde dormira.”
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