Se Comunique ou Sucumba

Por Sérgio Ciríaco de Freitas

Sobre o livro

Se Comunique ou Sucumba

O relógio marcava 7h30 quando Mariana atravessou a catraca da empresa. O olhar cansado denunciava uma noite mal dormida — e uma mente inquieta. Ela era uma das analistas mais competentes da equipe de marketing, mas também uma das menos ouvidas. Sempre que tentava apresentar uma ideia em reunião, a voz falhava, as palavras se embaralhavam, e o silêncio constrangido tomava o lugar das suas boas intenções.

Enquanto isso, Roberto, seu colega de equipe, era o oposto. Entrava nas salas com sorriso firme, terno alinhado e frases bem ensaiadas. Convencia qualquer um — mesmo quando não dizia muita coisa. Os chefes o admiravam pela “clareza e segurança” com que se expressava. Mariana, observando de longe, sentia um misto de frustração e inveja. “Ele fala bem… e sobe rápido”, pensava.

Naquela manhã, haveria uma reunião importante com investidores. O projeto que Mariana criara com tanto cuidado seria apresentado — mas por Roberto. O coração dela apertava ao ver o próprio trabalho defendido por outra pessoa, apenas porque “ele tem mais desenvoltura”.

E de fato, quando Roberto começou a falar, o clima mudou: os números pareciam mais convincentes, o plano mais viável, o público mais receptivo. A reunião terminou com aplausos, e Mariana, com um nó na garganta.

Na hora do almoço, foi desabafar com Lucas, um colega de outro setor, sempre tranquilo e observador. — Eu me sinto invisível — confessou. — Faço tudo certo, mas parece que ninguém nota. Lucas sorriu e respondeu com calma: — O problema não é o que você faz, Mari. É o que você mostra. Quem não comunica, se esconde. E quem se esconde… desaparece.

Essas palavras ficaram ecoando na mente dela pelos dias seguintes. Até que, numa tarde, Lucas lhe enviou um link de um curso gratuito de oratória e expressão corporal. Mariana hesitou, mas decidiu tentar. O primeiro exercício foi simples: falar de si mesma por dois minutos diante da turma.

Ela gaguejou, suou frio e terminou antes do tempo. Mas, pela primeira vez, sentiu vontade de vencer o medo — não para ser melhor que os outros, mas para ser ouvida.

Enquanto Mariana aprendia a dominar sua voz, a cidade vivia outro tipo de espetáculo: o Vereador Farias, político carismático e cheio de promessas, percorria os bairros com discursos inflamados, dizendo o que todos queriam ouvir. Falava de justiça, de emprego, de esperança.

Suas palavras enchiam as praças, mas não as geladeiras de quem acreditava nele. As manchetes dos jornais mostravam outra realidade — contratos superfaturados, doações suspeitas, desvios escondidos atrás de sorrisos ensaiados. Mesmo assim, ele continuava popular.

Era o retrato perfeito do poder da comunicação mal usada: a arte de convencer sem compromisso com a verdade.

Do outro lado, Mariana evoluía. Aprendeu que comunicar-se não é gritar mais alto, e sim transmitir com clareza, empatia e propósito. Passou a preparar suas apresentações com começo, meio e fim. Treinava diante do espelho, controlava o ritmo da respiração e olhava nos olhos do público. Aos poucos, foi notando a diferença: os colegas escutavam, os chefes perguntavam sua opinião, e o respeito começava a surgir.

Meses depois, uma nova reunião com investidores foi marcada. Dessa vez, Roberto não poderia participar — e o projeto era de Mariana. O coração dela disparou. As mãos suavam, mas ela lembrava das palavras de Lucas: “Quem não se comunica, sucumbe.”

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