Nhangüeara

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Esse romance, quando foi escrito, ainda havia trema como sinal ortográfico. O nome deve ser uma corrupção do pressuposto Anhanguera. Se veio assim deformado o título, talvez pelo fato de soar mais sonoro em língua nhengatu quando comparado ao termo do nome do bandeirante.

Como de hábito, o criador atua aqui com a finalidade de trazer esta curiosidade à tona. Devido à sua convivência nos meios indígenas do Brasil, Henriques deve ter apreendido o título de ouvir tais referências e rememorar suas aplicações. Surge o título esplêndido.

É um romance denso. Típico texto da fase inicial desse grande criador. JH Henriques trata a palavra com a sofreguidão da redescoberta paulatina e gradativa, a ponto do neologismo sobressair como figura principal de estilo.

Esse tipo de neologismo é altamente geográfico e histórico porque alia uma concepção nova – neo – ao arquétipo das coisas.

A filologia de certas palavras esboroa em algumas condições e ressurge montada na qualidade da onomatopeia, mormente quando trata de matéria bruta da natureza, assim como água, os peixes, algum som de remo, o pio de uma ave, o áspero som do pouso dos grandes patos selvagens.

De tal sorte que a figura de estilo é uma espécie nômade dentro desse romance. Pode ser adaptada e mesmo que seja transposta para outra língua, a sugestão dos fricativos e dentais permanece. Ou pelo menos deveria permanecer.

Retorna a história nesse romance às beiras do Araguaia e conta a vida de um branco que tem desejos de ser índio e de um índio que não deseja ser branco. É o velho retorno ao estado da purificação feita pela natureza sobre as figuras humanas.

Uma coisa antiga, com estalos cuspidos de Jean Jacques Rousseau, porém, tudo fundamentado na Literatura mais aprimorada que possa ser encontrada. Não dá para se ter uma ideia completa desse compêndio sem conhecer dele pelo menos um fragmento.

A novidade de estilo pulula aqui, vai muito além de O Cobra Norato. E das ilações de Guimarães Rosa. Surge uma literatura que poderia ser chamada de Araguaia. Pura com as vertentes desse rio que, como diriam os ancestrais, vira e mexe, está voltando ao Rio Araguaia. Dito o mais bonito do mundo.

Sendo o rio mais bonito do mundo, tem seus enigmas, tem suas histórias, seus mitos, seu botos e suas ariranhas. Deve mesmo ser posto entre os monumentos da humanidade. Pelo menos antes que se acabe e dele reste apenas a memória com jacarés pastando luz às margens desse submundo. Ou supermundo, seja lá com for que Nhangüeara vê as determinações dessas luas de um dia. Nhangüeara é um romance que precisa ser relido sempre.

Fragmento do primeiro capítulo

Xaviélio todo dia que estava novo no Mundo, achava de ter as modas inventadas. Buscava umas novidades para aquilatar sua vida. Fora no lugar do Araguapaz, o chamado que era por todos o Cavalo Queimado. Sendo que para Araguapaz ficava somente a estampa de placa de rodovia.

Fora no Cavalo Queimado buscar coisas que tinham lá a sua utilidade para a vida de um vivente ficar mais fácil de desempenho. O fósforo, a um exemplo, mal se dando. Uma garrafa de querosene. Fumo, pedaço de fumo de corda, coisa que era da apreciação de alguma hora na vida de Índio Saraquenquén.

Índio não via revantagem, borda alguma de coisa boa em Xaviélio andar ao Cavalo Queimado. Pois que a rota que ele fizera era meio destrambelhada, perdida de lugares.

Xaviélio para chegar adonde queria estar, descera o calmo fluxadal do Vermelho, remara boas cinco horas de remo seguro rio abaixo, depois apoitara em Aruanã.

Se em Aruanã havia de quase um tudo, até cerveja e pastel de carne frito, por que a besteira inteira de andar de condução, em rota de asfalto e bater no Cavalo Queimado? Somente mesmo cabeça lesa de Xaviélio. Pode ser que mesmo houvesse alguma segunda intenção dele.

Índio não confiava em todo integral em Xaviélio. Sempre estava a buscar chifres em cabeça de saracura, o Xaviélio.

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