Quer mesmo ser professor?

Por Mônica Bayeh

Sobre o livro

Aula rolando não seria a descrição exata daquilo. Aula tentando rolar, seria mais adequado. Uma criatura alterada levanta e grita do meio da sala: – Professora, eu quero falar ¨eu quero censa ¨em francês! Isso que eu quero aprender! Eu não entendi. Era licença e ele falava errado?

A criatura carecia de educação, de semancol, mas não tinha um português tão comprometido assim. A pronúncia também se mantinha intacta. Ao contrário da noção de adequação, essa última bem comprometida. – Repete, não entendi. – Eu quero censa, como eu falo isso em francês?

– Não sei, nem em português, quanto mais em francês. O que é censa? Outro mais aflito com a situação, levanta para fazer com gestos, batendo uma mão na outra o que era censa. Podem imaginar o que seja? Isso mesmo, imaginaram certo. – Isso agora se chama censa? Mudaram o nome e nem me avisaram.

Não posso traduzir censa para vocês. A turba revoltada protestava. Como assim? Porque não? Tem até música. E outro grupo animado levantou e começou a cantar um funk meio esquisito.

– Não posso porque vai vir um monte de mães de pau na mão aqui para me dar uma surra, se vocês chegarem em casa dizendo que eu ensinei censa em francês. – Então diz como é incenso, a gente parte a palavra e fica censa em francês.

– Se eu ensinar “eu quero incenso” o máximo que você consegue é acharem que você quer defumar sua casa. – Incenso ou licença. Qualquer um serve. A gente parte, fica censa em francês. – Mas, não vai ter sentido nenhum. Não vai ter significado, nem vai existir.

– Isso é o de menos, a gente quer é falar que quer censa em francês. E lá se foram eles, felizes com um censa que não quer dizer censa nenhuma nem em português nem em francês.

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