E a loucura é coisa tão simples como a felicidade?

Por Luiz Duboc

Sobre o livro

Poesia é sorte, boa vontade e paciência.

O melhor poema é o poema que não será tentado.

Poemas: num país que tem vergonha da palavra poesia.

Poemas: para um autor que não tem vergonha em escrevê-los.

Poemas: para algum provável leitor invisível.

“Não se termina um poema, se abandona o poema.” [Mallarmé]

Pensamento lúcido, entenda-se o que se quiser.

Como uma mulher que se abandona. Por que se abandona uma mulher é labirinto. A resposta é somente a entrada do labirinto.

Especular, teorizar, racionalizar, tirar ou não tirar a conclusão que seja da frase do poeta francês é tirar ou não tirar a conclusão, racionalizar, teorizar, especular o que seja desta frase.

Sinto que não abandono um poema, o poema é que me abandona.

Onde há verdade tem alguma mentira.

Onde tem alguma mentira há muita verdade.

O melhor poema é o que não foi escrito.

E como quem escreve não pode mentir o pensamento, honesto é dizer isto para algum leitor:

A natureza é um templo em que vivos pilares

deixam às vezes escapar palavras confusas;

o homem passa por ali, atravessando bosques de símbolos

(…)

Há perfumes frescos como carnes de crianças,

doces como o oboé, verdes como as pradarias…

Charles Baudelaire

Não sei como os outros escritores se sentem, não sou nenhum deles. Talvez possa saber como um pessoa se sente sem ser esta pessoa. Mas um escritor, não sei.

A única coisa que possa ter parecido com outro escritor é a solidão. Estar sozinho consigo mesmo. Paro aí.

Daí em diante sigo só comigo ao falar de escutando uma voz pensando. Falo voz, não me vem outra palavra para isto. Voz sem eco, não bate e volta, não se repete: vai-se, só a escuto uma vez. E nem há nenhum orgulho nem nenhuma vaidade nisto.

Sinto e sei em seguida que quando eu escrevo sou uma ilha flutuante de lixo abandonada. Perdida. Até desesperada. Não descontrolada. Posso não saber onde vou, para onde estou indo, se vou chegar onde seja. Mas sei que quero ou pretendo chegar, e a esperança não tem absolutamente nada com isto.

A palavra mais perto que me vem é vontade. Um pensamento de vontade para um sentimento da vontade, mas piorei, mais realista, objetivo e honesto ficar só com a vontade.

Se consigo acertar as palavras e se consigo um página honesta, uma ilha voadora.

Não sei e não consigo imaginar o tamanho desta ilha (é um ilha?).

É uma solidão sozinha consigo mesma, em si mesma, alimentando-se de um egoísmo solitário por si mesmo.

Que queria me dizer, que foi que me disse, que foi que escutei, que foi que escrevi?

Queria falar que não sei o que outro escritor sente, falar da solidão, da voz pensante, da ilha flutuante de lixo, do egoísmo.

E, agora, da garimpagem, como é garimpar, sem esperança de encontrar algum veio, se vai garimpando.

E, agora, da escalada de um vulcão, vulcão no sentido de um vulcão não da grandiosidade do vulcão, não da grandeza de escalar o vulcão. Porque não há saída, é simples assim, como também é simples não escrever. Escrever ou não escrever não é a mesma coisa do que ser ou não ser. Escrever ou não escrever é escrever.

A ilha já se moveu com seu lixo. A voz já se foi. E eu ali com minha picareta ao pé do vulcão, me dando por feliz porque ainda tenho uma picareta.

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