A Dança das Palavras: Poemas no exílio

Por Aurelio Porfiri

Sobre o livro

O que é poesia? Tão grande questão é difícil de responder e a definição pode variar dependendo a quem se pergunta. Que critérios seguir para julgar se um poema é bom ou não? Poetas haverá que tentam aplicar regras pessoais à sua poesia.

Outros encontram autenticidade no que Paul Verlaine transmitiu no seu famoso poema Ars Poetica: “Musicalidade sobre qualquer outra coisa/ E por isso prefere o verso ímpar/ Que vagueia e se dissolve no ar/ Sem amarras e que em nada poisa/ É bom também que saibas selecionar/ Termos leves, descuidados/ São melhores os versos fluidos, desprendidos / Onde o vago e o definido se conseguem aliar”.

Parece haver aqui uma interpretação que de certa forma é partilhada por poetas que residiram em Macau, como Camilo Pessanha. No início da sua Clepsydra, vemos estes quatro enigmáticos versos: “Eu vi a luz em um paiz perdido./A minha alma é languida e inerme./Oh!

Quem podesse deslisar sem ruido!/No chão sumir-se, como faz um verme…”. A procura da musicalidade sugerida por Verlaine é evidente nestes versos do poeta que viveu em Macau.

O que é poesia? Pensa-se que Leonardo da Vinci terá dito o seguinte: “A pintura é uma poesia que se vê e não se sente, e a poesia é uma pintura que se sente e não se vê”.

Tenho-me interrogado sobre esta questão após me ter embrenhado na tradução para Português dos poemas feitos por Aurelio Porfiri, um músico que não sendo natural de Macau, estabeleceu uma forte ligação com essa cidade, tal como Camilo Pessanha.

Aurelio Porfiri, nascido e criado em Roma, um especialista em música clássica, decidiu em Macau expressar-se igualmente pela via poética, e não apenas através da arte musical. Talvez que poesia e pintura estejam afinal interligadas.

Durante o nosso trabalho de colaboração para a tradução destes poemas, uma frase era repetida frequentemente por Aurelio: “encontra a musicalidade nos meus versos”. Este aspeto do seu trabalho foi a sua maior preocupação, ultrapassando até a que se relacionava com o significado das palavras.

A sonoridade adquiria um aspeto prioritário comparativamente com o próprio significado dos poemas em si. A mensagem transmitia-se através do ritmo.

Certamente, sendo italiano, Aurelio esteve ciente das lições dos grandes poetas italianos, como David Maria Turoldo, Mario Luzi, Giorgio Caproni, Eugenio Montale, muito embora me tenha confessado que o seu poeta predileto fosse, na verdade, o indiano Tagore.

Nestes poemas, o autor tentou abarcar assuntos como a vida, a tristeza e o amor, encarado sob a perspetiva de alguém que durante vários anos, viveu e trabalhou numa terra estrangeira, numa espécie de “exílio” voluntário do seu amado país e da sua amada cidade de Roma, onde não lhe foi possível encontrar condições para desenvolver os seus projetos.

Por isso, sentou-se algures em Macau, um espaço que lhe é metafísico, e foi descobrindo esta dança das palavras, uma dança que tentou reter em papel através dos poemas que podem ser lidos nesta coletânea.

De certo que a sua relação de amor/ódior com Macau faz parte do que aqui se pode encontrar, mas não só. A própria tradução dos poemas foi em si uma aventura e um desafio, uma luta com as palavras e a razão de inúmeras conversas por telefone. Será afinal Aurelio Porfiri um poeta de Macau?

Talvez mais do que um poeta de Macau, é um poeta que em Macau captou, por vezes, de forma inseparável, as influências negativas e positivas da Cidade do Nome de Deus e as transpôs para quase todos os versos, que culminaram nestes seus poemas. Mariana Pereira

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