O Bilboquê

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

O Bilboquê é um livro cheio de méritos a devoções ao mundo das Letras. Um compêndio que leva a história convencional de um mundo arquetípico a qualquer leitor sensível. Ataviado a um estilo muito peculiar, esta escrita segue os padrões pós-modernismo e alavanca uma escola literária de renovação.

Entretanto, há ainda no autor de O Bilboquê esses elementos telúricos que foram capazes de nortear boa parte da escrita de Guimarães Rosa e Mário Palmério. Aliás, a dizer-se de passagem, teria sido muito produtivo e interessante se o grande Mário Palmério tivesse nos deixado um livro de contos.

Com a cabeça plena que era a sua, um livro de contos nos daria o sabor iminente de toda a estrutura consonantal desse mundo que vigia além do Chapadão do Bugre e Vila dos Confins. O excepcional e saudoso, sempre saudoso, Mário Palmério.

A verificar-se pela sonoridade do título, O Bilboquê é atividade lúdica em desuso porque possui um sistema primitivo de entendimento, disputa e manipulação. Hoje em dia, os competidores preferem sistemas mais complexos, com entradas e saídas programáticas e digitais, com tecnologia 5G de preferência.

Esses brinquedos com botões e giroscópios, com atenuações e vibradores, todo tipo de parafernália eletrônica e geradora de violência e mutismo, é isso que está na moda. De tal sorte que, o resto, se bem pensado, é descartável e é démodé. Esses eletrônicos são caros, repercutem o dia inteiro, viciam.

Por serem viciantes, são os preferidos e ninguém tira da cabeça de um viciado que o vício é o começo da imbecilidade. De sorte tal que, sendo o bilboquê um pedaço de pau furado, não vale nada mesmo. Ninguém troca um videogame por um bilboquê, só se estiver doido.

Esse compêndio de contos revela uma face inocente da vida no interior do Brasil. Aqui estão reunidos contos, uma dezena deles, de escrita primorosa. E sempre é recorrente essa ideia de progresso e de interfaces de tempo e outras estações espaciais.

E fica sempre a se conjecturar diante desses contos um quarteto que anda sumido e que dificilmente vai se recuperar de forma impune. Um deles é esse bilboquê – motivo do livro como um todo. O segundo brinquedo que está sob risco de extinção é a bola de gude. A biloca. O terceiro é o jogo de bete.

E o quarto é a pelada de campinho mambembe, com os gols feitos de dois pedaços de tijolo quebrado. O mundo se recicla e mesmo a palavra bilboquê já está em desuso. Enquanto objeto, a coisa precisa do nome para ser entendida. Se for vista, pode até dispensar o nome.

Mas em âmbito de Literatura, carece de nome.

E o nome do bilboquê começa a ser esquecido. Pouca gente sabe o que é isso, do que se trata. Humberto Henriques sempre foi um colecionador dessas palavras em franca extinção. São muitas. Inúmeras pelo Brasil a fora. Então, isso faz parte de seu mundo de múltiplos interesses.

Ocorre que, não obstante todos esses detalhes curiosos, o livro O Bilboquê é uma peça literária de peso. Todos os contos são trabalhados com a estrutura mais densa que a prosa possa trazer à tona. Diante disso, pode ser que qualquer conto do livro possa ser o carro-chefe que nomeia o conjunto.

Se foi escolhido O Bilboquê para tal finalidade, somente porque a sonoridade aliada ao sumiço da palavra e do objeto moveram o contista em tal direção. Os contos trazem a regra simples e comum, trivial, de levar personagens ao seu estado mais primário de pensamento.

Com isso, suas almas se revelam a cada frase.

Diante desses fatos todos, há que se entender que O Bilboquê um livro introspectivo que demonstra de forma perfeita o arranjo dos homens no ambiente em que estão inseridos.

Isso é demonstrado de maneira real e sem subterfúgios, apenas utilizando por vezes as maciças crenças de que o todo não passa de uma massa inerme que não vai avante. Essa peça atávica ancorada, a terra e sua gente, numa espécie de modorra que nunca vais ter fim.

De tal sorte que a vida segue e os movimentos de progressão muitas vezes não passam de uma história que

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