URV: Unidade de Ruído e Vazio

Por Esli Albuquerque

Sobre o livro

Várzea Real, interior de São Paulo, março de 1994. O Brasil está em convulsão. A inflação devora o valor do dinheiro antes que ele chegue ao fim do dia. A URV — Unidade Real de Valor — acaba de ser criada como ponte para uma moeda nova que promete, pela primeira vez em décadas, estabilidade.

Helena Prado, trinta e um anos, é caixa do Banespa. Seu mundo é o guichê: carimbos, comprovantes, conferência de numerário, fechamento de caixa no zero. Ela acredita em procedimento. Acredita que se os números batem, o mundo funciona.

Mas no primeiro dia da URV, um comprovante não fecha. Uma conta encerrada há cinco anos reaparece no sistema. Um nome que ninguém lembra é registrado com a letra dela. E entre os funcionários começa a circular um material xerocado sem origem — tabelas que não correspondem a nenhuma circular oficial, categorias que classificam clientes não por risco financeiro, mas por algo que o manual chama de “permanência”.

Aos poucos, Helena percebe que a nova unidade de conta não mede apenas preços. Mede presença. Mede o tempo que uma pessoa ainda ocupa no mundo. E enquanto o país caminha para a estabilização, pessoas ao redor dela começam a ser processadas — não demitidas, não mortas: convertidas. Apagadas do registro dos outros. Ainda ali, mas cada vez mais difíceis de lembrar.

URV é um romance de terror psicológico ambientado no Brasil dos anos 90 — onde o horror não vem de monstros ou ruínas, mas de formulários, carimbos, filas de banco e um sistema que não explica, não ameaça e não odeia. Apenas processa.

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