O Anjo Que Cruzou Meu Caminho

Por Sérgio Ciríaco de Freitas

Sobre o livro

O Anjo Que Cruzou Meu Caminho

O sol já começava a descer por trás dos morros quando Joãozinho, um garoto magro e de olhar curioso, terminava a aula na pequena escola do vilarejo. Como fazia todos os dias, ele guardava os cadernos na mochila, se despedia dos colegas e ia correndo para casa.

Sua missão era importante: levar o almoço que a mãe preparava com tanto carinho para a vovó Benedita, que morava sozinha no fim da estrada de barro, a quase uma hora de caminhada dali.

A mãe, enquanto embrulhava a marmita ainda quente, dizia sempre o mesmo: — Vai com Deus, meu filho. E não demora, que o caminho é comprido. Joãozinho sorria, colocava o chapéu de palha e respondia: — Pode deixar, mãe! Eu volto antes do escurecer.

A estrada era longa, mas o menino gostava dela. O vento soprava leve, os passarinhos cantavam e o cheiro de mato verde fazia tudo parecer mais bonito. Quando chegava na casa simples da avó, de paredes brancas e janela azul, o cansaço sumia. Ela o recebia com um sorriso cheio de ternura e dizia: — Ah, meu netinho, o anjo que Deus me mandou chegou!

Depois que ela comia, vinha o momento que Joãozinho mais esperava: a história do dia. Dona Benedita tinha um dom de contar histórias. E naquele dia, a voz dela saiu mais doce e misteriosa que nunca:

— Sabe, meu filho… há muito tempo, um anjo desceu do céu para proteger os viajantes que andavam por essas estradas. Diziam que ele tinha asas enormes e uma espada de luz, e que só aparecia para os de coração puro. Ele caminhava ao lado dos que acreditavam no bem, mesmo quando ninguém mais acreditava.

Joãozinho ouvia atento, os olhos brilhando de encanto. — E ele ainda aparece, vó? — perguntou curioso. A velha sorriu e respondeu: — Ah, aparece sim… mas só para quem tem fé de verdade.

Depois do almoço e das histórias, Joãozinho se despediu, prometendo voltar no outro dia. O céu começava a mudar de cor, e o vento trazia o cheiro da chuva distante. A estrada, antes tranquila, parecia mais silenciosa do que o normal.

Foi então que ele viu três homens vindo em sua direção. Eram altos, mal-encarados, com os olhos duros e as roupas sujas. Joãozinho sentiu um frio na barriga. Não havia por onde escapar. O coração começou a bater rápido, e as palavras da avó ecoaram em sua mente: “Só aparece para os de coração puro.”

Sem pensar, ele fechou os olhos e começou a rezar baixinho: — Anjo de Deus, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa e me ilumina…

De repente, um clarão dourado iluminou o caminho. Um vento quente soprou, e quando Joãozinho abriu os olhos, viu diante de si um anjo de asas imensas, brancas como a luz do sol, e nos olhos um brilho que parecia vir do próprio céu. O anjo ergueu a espada fulgurante, e os três homens, tomados pelo pavor, caíram de joelhos e correram para longe, como quem foge da própria sombra.

Joãozinho ficou imóvel, sentindo uma paz que nunca havia sentido antes. O anjo então olhou para ele, sorriu e, sem dizer palavra, o acompanhou até quase a porta de casa. Ali, o anjo parou, inclinou a cabeça num gesto de bênção e desapareceu entre as nuvens cor-de-rosa do entardecer.

O menino entrou em casa ofegante e contou tudo à mãe, que o ouviu com lágrimas nos olhos. Ela o abraçou forte e disse baixinho: — Deus manda seus anjos para quem acredita, meu filho. E hoje, Ele te mandou um.

Naquela noite, enquanto o vento batia de leve na janela, Joãozinho adormeceu com um sorriso no rosto. Sabia, no fundo do coração, que o anjo da história da vovó era real — e que ele havia aparecido justamente para provar que a fé é a ponte entre o céu e a terra.

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