Vazante: Lá e cá

Por José Sarmento

Sobre o livro

UNO, DUO…

Vazante: Lá e Cá – Uma declaração de amor ao livro, à leitura, à literatura, à poesia e aos saraus, o novo romance de Zé Sarmento (ou José Marques Sarmento), é uma obra de dualidades, as quais, apesar de algumas vezes opor realidades distintas, faz aproximações entre os “brasis” pelos quais o enredo se passa.

Pra início de prosa, “lá”, no árido Sertão (“onde a vida era triste”), “vazante” remete à intervenção humana para umedecer a seca terra e garantir a sobrevivência nas épocas de chuvas:.

“Cá”, na Terra da Garoa (onde a vida “também” é triste, mas “pelo menos tem água, comida, uma casa razoável”, depois de trinta e cinco anos de trabalho), não é a escassez, mas o excesso de água que, vazando pelos córregos, bueiros e vias, enche as casas e esvazia sonhos de uma vida melhor.

Prosseguindo a conversa, é bom que se diga (escreva) que se “em todo romance, a locução impessoal e objetiva, combina-se à lo cução interpessoal e subjetiva” – como explica Benedito Nunes, no clássico Tempo na narrativa –, tal assertiva, todavia, parece-me muito apropriada, mas muito apropriada mesmo, para tratar sobre Vazante.

O real e o imaginário se imbricam de tal modo em Vazante que, em suas páginas, se fundem e se confundem à capacidade de enfabulação do Zé Sarmento, experiente escritor, com a competên cia de pesquisa desse mesmo Zé, graduado historiador.

No livro, é denso e tenso “o vínculo entre o autor e a sua per sonagem”1. No romance, a voz da personagem protagonista fictícia, 1 Em “A personagem do romance”, no livro A personagem de ficção.

que enfrentou as dificuldades do sertão, rural, em uma época da vida, e passou pelos transtornos da cidade, urbana, em outra, não difere da voz biográfica do ser de carne e osso Zé Sarmento.

Antônio de Joaquim da Moça, da maneira que era conhecido em sua cidade natal, ou Antônio Conceição Ferreira, tal qual cons ta dos documentos, ou Tonho Retirante, como se torna na vida, é uma personagem cuja trajetória assemelha-se a de Zé Sarmento, ou José Marques Sarmento (de saraus e livros), ou o Zito do Bixiga, o nordestino sonhador na metrópole, e da Rua Manoel Fialho, do trabalhador com sua família no Capão.

É tênue a linha entre autor e personagem nesse romance. Moldam-se e se acomodam as memórias do autor e da personagem nas páginas e na vida, de modo que, ao ler, quem conhece o autor–nordestino-periférico reconhece-o na personagem principal.

As experiências de um “retirante”, na casa dos sessenta anos, que faz caminhadas, frequenta bibliotecas, exalta saraus e tem amiza de com o professorado seriam relatos de um autor muito conhecido do leitor ou de uma personagem que está sendo apresentada a esse mesmo leitor?

Nessa ficção ou não-ficção (a certa altura da leitura é difícil definir) são variadas as referências (in)diretas que não apenas fazem loa aos saraus e a algumas de suas personagens, mas, poeticamente, aproximam os leitores da interessante ficção da realidade pulsante que o escritor busca retratar nas páginas de seu romance.

Ademais, para além da figurativização da linguagem, a voz que narra (talvez essa expressão deixe o leitor menos confuso) faz uso da metalinguagem: a literatura que produz trata de literatura, de literatura periférica.

A trama narrada não é mera coincidência com a realidade (só pra aludir ao imaginário cinematográfico pelo qual tanto transitou o autor em sua vida).

A personagem protagonista andante, caminhando para não ficar parada defronte à alienante TV, cresce, intelectual e espiri tualmente, à medida que visita a Helena Silveira (maior biblioteca da região de Campo Limpo, na qual só há mais uma, além das dos CEUs e comunitárias), cita a ação de distribuição de livros (do Sa rau do Binho), no Terminal de ônibus (Campo Limpo), o Sarau da Cooperifa; a soltura dos passarinhos de suas gaiolas é emblemática dessa transformação.

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