O palimpsesto amoroso em Desmundo: contos de fadas
Por Adriana Carolina Hipolito de AssisSobre o livro
O ensaio de Adriana Carolina Hipólito de Assis não só abre caminhos originais para a leitura de Desmundo, romance de Ana Miranda (2003), mas ilumina a crítica literária, aberta a novos enfoques e procedimentos fecundos, interessada nos mecanismos de recepção dos textos literários.
A busca das origens, das fontes, é um processo de recriação poética, que tem a ver com a magia da decifração, sem cair no irracionalismo. Exige-se um leitor qualificado, capaz de, nas dobras do texto, perceber outros textos camuflados, que só uma raspagem palimpséstica consegue desvelar.
A raspagem do texto de Desmundo, segundo Adriana Carolina, deixa entrever outra camada, “na qual emergem textos, que revelam ecos de uma voz movediça, advinda da tradição oral, “na qual comparecem contos de fadas, ritos de passagem, provas iniciatórias e, até mesmo, de um ideal de afeto, de amor traduzido pelo final feliz” (ASSIS, 2024).
O palimpsesto constitui-se numa ferramenta de análise literária, que esclarece os estudos relativos ao dialogismo, à paródia, ao intertexto, à intertextualidade. A própria Ana Miranda surpreendeu-se com os resultados dessa análise, aplicada à sua obra.
O palimpsesto obedece a um processo estético multifacetado e revela nos sulcos herméticos do texto, em suas camadas em constante semiose, índices de outras abordagens, que só a raspagem do signo consegue identificar.
O leitor munido de repertório adequado consegue “auscultar a voz” advinda da oralidade. Essas marcas chamadas de tatuagens, extraídas da memória cultural, devem estar no texto e não serem meras analogias, como diz Adriana Carolina. Sem dúvida, é um jogo metalinguístico. Há que decifrá-lo.
Memórias afetivas, discursos amorosos, se replicam na Literatura e o Autor, seja consciente, seja inconscientemente pode servir-se deles.
Se Adriana Carolina articula o “final feliz” como marca palimpséstica é porque se trata de um clichê literário, que perpassa os tempos, mas que na realidade todos desejam. Mesmo no Desmundo, em que se vive.
Profa. Dra. Olga de Sá
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