Fábrica de Heróis

Por Yuri pires

Sobre o livro

Convivi longo tempo com profissionais literários que acabei criando uma categoria para alguns: “sertanejos da literatura”. E não se trata de nenhuma chitãozinhoexorororização da literatura, pois estes se encontram em um lugar destacado na minha consideração.

Explico: os escritores enquadrados nessa categoria são aqueles que rasgam a Língua – a puta que manda, como já definiu o baiano João Filho, outro encalacrado nessa qualificação do vivente aqui – com golpes certeiros de peixeira, maestria da qual dou ciência e fato.

Yuri Pires, recifense autor também de “O homem e o seu tempo”, é outro que conquistou espaço nesse rol particular ao escrever esse “Fábrica de heróis” no qual você pousa os olhos agora.

Se você está lendo esse prefácio antes de embarcar nas narrativas arquitetadas com paciência – e sadismo; tá pensando que o ofício de escritor é bolinho? –, entenda o seguinte: não há salvação para ninguém.

Yuri lança mão de um título preciso para seu livro, somente para nos fazer entender que o mundo é assim “porque heróis não existem mais” – se você sabe de onde saiu essa frase, então conhece muito bem o universo do qual o escritor trata aqui. Eu te saúdo.

Se você já leu o livro e só agora veio até aqui, então já sabe que esteve certo o tempo todo ao temer que tudo era fantástico e verossímil ao mesmo tempo. Por você eu lamento: não há redenção, esse é um caminho sem volta.

Ainda aqui comigo? Tome fôlego e anote, que agora eu trago uma chave para maior compreensão.

A crueza e aridez das ambientações por onde as narrativas de “Fábricas de heróis” são fermentadas encontram ressonância nos diálogos dos personagens, fazendo uma costura sintagmática que conduz a leitura por um fio d´água que enseja terminar em algo maior e mais “pleno de sentido na vida”, porém falha e se decepciona.

Nada tão escancarado assim, porque esse é um dos ardis de Yuri Pires: pontificar, através pequenas epifanias aqui e ali em uma narrativa ou outra, que “Deus é uma negra velha, (…) Com uma faca, sem cabo, na mão”. E você, acuado, acaba concordando.

Jorge Rocha é jornalista, professor universitário e editor da revista [limbo]

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