PSICANAGEM: Nem Freud explica

Por Carlos Vieira

Sobre o livro

Conclui este texto de teatro aos 16 anos, em 1979 no Rio de Janeiro. Morava entre os bairros do Flamengo e Botafogo. Estava terminando o 2º grau, ou grau médio, como se diz hoje.

Mudei-me para Flamengo, no Rio e com 15 anos de idade comecei a escrever minha primeira peça de teatro adulta e, com seu registro, fui aceito como filiado à SBAT, sociedade brasileira de autores teatrais.

Dei o nome de Psicanagem à peça, pois se tratava de um retalho de conversas que ouvi quando frequentava Ipanema no posto 9.

Eu gostava de me sentar na areia próximo de onde se sentavam Helio Pelegrino, Eduardo Mascarenhas e outro psicanalista da época que não lembro o nome e eles contavam as histórias dos seus clientes e riam muito e, mesmo sem revelar o nome das pessoas, descreviam suas características e a gente imaginava quem era o sujeito.

Na época eu achava aquilo meio antiético. Em pouco tempo, Eduardo Mascarenhas teve um crescimento vertiginoso em sua carreira como psicanalista depois que se casou com Cristiane Torloni que era sua cliente.

Então eu decidi escrever uma peça cujo personagem principal era um psicanalista meio nazista que pretendia realizar a cura gay.

Eu tinha só 15 anos e não sei se julguei corretamente o que vi nas areias de Ipanema e não sei se fui justo com os três psicanalistas, mas me rendeu um texto que me alçou à lista de dramaturgos nacionais junto à SBAT.

Na época eu também estava impregnado de Nelson Rodrigues e Dostoievsk. Eu passava horas lendo no Real Gabinete Português de Leitura. Da literatura do Nelson eu queria viver como um dos seus personagens, malandro, safado, sem caráter.

De Dostoievski eu queria a vocação literária e até tentei manifestar a epilepsia em mim achando que era sua fonte criativa. Jejuei durante quatro dias, ingerindo pouquíssima água e fui fazer ioga, na tentativa de sofrer um ataque epilético.

Desmaiei durante um exercício, meu corpo tremia convulsivamente, mas não cheguei a babar espuma. Foi uma experiência mágica que não quis repetir. Psicanagem também foi baseada em histórias que uma colega do Colégio José Bonifácio me contava. Mineira, ela foi pro Rio tentar a sorte.

O Colégio era péssimo, o turno noturno pior ainda. O nível dos alunos era tão baixo que os professores ensinavam parco e medíocre conteúdo. Na verdade, os alunos chegavam cansados em sala de aula, depois de horas dedicadas a seus empregos.

Era época de hiperinflação e abertura política, depois do país ter passado pelos anos fatídicos de ditadura militar. Éramos meio alienados, por força da repressão política e econômica.

O cinema nacional e o teatro viviam o auge da pornochanchada e Nelson Rodrigues era dramaturgo e cronista de sucesso. Ele escrevia bem, mas apoiava a ditadura e não acreditava que houvesse torturas no Brasil. Até que seu filho foi preso e torturado.

Nos meus 16 anos o que eu queria era “pegar alguém”, e naquele colégio fraco surgiu uma boa oportunidade, pois, tendo estudado, anteriormente, no colégio Plinio Leite, da elite fluminense, não por ser rico, mas consegui uma bolsa de estudo integral através de um concurso que o Dr.

Plínio, dono do colégio, presenteava a comunidade carente local. Assim, meu nível de conhecimento estava acima do da maioria. Éramos três CDF (cu de ferro) ou Nerds na linguagem de hoje: eu, um negro bem forte filho de uma família de militares da marinha e um chinês.

A mineirinha e mais duas colegas precisavam urgentemente de aulas de reforço, e me convidaram para dar aulas particulares. Fui, na esperança de ensinar e aprender. E não deu outra.

Logo na primeira aula ela começou a contar as estripulias sexuais que fez assim que chegou ao Rio, longe dos olhos mineiros dos pais.

Eu fui anotando mentalmente o que ela contava e os trechos mais estranhos e engraçados foram se tornando um só enredo, com um personagem central em busca de um tratamento psicológico para curar seu estranho comportamento sexual.

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