A Lã e o Barro

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Supostamente novo, esse livro volta a ocupar essa posição vanguardista em toda a obra desse escritor exponencial. Profuso e ilimitado. Umberto Henriques utiliza esses dois materiais para compor o contrapondo da coisa. A coisa enquanto matéria e depois como objeto, já que surgiu a nomeação dos dois.

O barro e a lã. Absurdamente distintos, impossível se misturar um e outro de maneira a não lesar um e outro. somente com a ajuda da palavra é que barro e lã fazem parceria. Isso assim revelado parece ser uma memória que o poeta quer nivelar com os dias e hoje.

Tanto a lã quanto o barro são coisas que não existem mais, pelo menos em sua forma assim lúdica e lúcida, em vida do escritor.

Se ele remete a esse conformismo de um e de outro, de faz a consonância e o contraponto, somente pelo fato de entender que um livro come esse título é deveras um compêndio que faz convite para as suas páginas.

Aqui, porém, estamos falando de poesia máxima, aquela que pode ser encontrada nos grandes cânones franceses do fim do século XIX. Portanto, a se pensar bem, os impressionistas que faziam símbolos nesta época.

A lã e o barro, matéria que não esmorece jamais, uma de cada lado da senda de um mundo arquetípico.

A tia-avó a cardar a lã e depois, na roda de fiar, a manter os fios em ordem e a produzir a substância necessária para a situação de se preparar o tecido ou qualquer outra coisa que seja de utilidade dentro da caverna – ou seja, dentro do mundo doméstico onde ainda se milita e isso não vai mudar jamais, mesmo que todos os progressos nos conduzam a uma luz distinta, em dimensões diferentes e com cidadelas espalhadas na flutuação do mais denso.

A Lã e o Barro é, então, um livro convencional que exibe a formatação de um mundo muito enovelado na base do mundo doméstico.

A se pensar direito nesse título, também em algum poema desse livro, o que se percebe é um retorno ao protótipo da sanidade rotineira que se instalou num plano ibérico e dificilmente vai ser apagado da memória.

Ao se ler o livro, a intenção do autor de começar um compêndio de poesias e a mostrar que o mês vigente era maio, quando já sopram das serranias os ventos frios de inverno, ainda assim, alguma rebarba de últimas chuvas do ano, aquelas que servem como desculpa para mais estar frio o tempo – segundo mesmo a concepção dos ancião que por cá vivem -, é isso que fica patente como ideologia para um espaço a ser preenchido.

Não se procede à tosquia em tempo frio em Minas Gerais e Goiás porque as ovelhas, uma vez peladas, estão sem proteção de seu casaco de lá e sofrem muito com as rajadas frias de vento. Aqui, o autor permite que isso aconteça.

As ovelhas tosquiadas, doadoras universais, deixam a lá no balaio e a tia, dona Teresa está a cardar e a proceder em outras utilidades. Lã clarinha, leve, toda ajuntada no mais limpo elemento que a parte doméstica embala.

Então, lá fora, ao relento, a molecada presumível está solta em suas liberdades e as ovelhas no velho ritmo, o mesmo do ano que passou. Tosquiadas e sujas. A chuva temporã do mês de maio, quando já era época de ter cessado essa inclemência, cai durante um dia inteiro ou dois.

Depois disso, vem bem estabelecido o inverno da região e os ventos da serra batem com vontade. A meninada está suja. A lã, depositada dentro de casa, em balaios enormes, espera pelas mãos ortodoxas da tia que vai cardar. Então, lá dentro, sempre a crepitação da lenha dentro da fornalha.

E o bule sobre a chapa quente. São esses os resumos da eternidade do lar, da força doméstica do pensamento. Essa peripécia é uma constante na obra de Humberto Henriques.

Portanto, é esse contraste eterno entre a lã impecável e o barro em seu estado também mais puro, porém, outra banda matéria, que dá o confronto e o contraponto pra esse livro espetacular. Mas algo mais deves ser dito.

Obre a obra em si mesma. Aqui foram inseridos alguns visuais, todos produzidos a partir da fotografia e do desenho, de tal maneira que isso, sendo quase pictórico, branda muito a

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