Crônicas do vento de abril

Por Sonia Zaghetto

Sobre o livro

Sonia Zaghetto figura no grupo seleto dos cronistas literários principalmente porque seus temas e sua perspectiva assentam-se nas coisas essenciais da vida; nos episódios que se posicionam acima das frivolidades de um mundo edênico; nos relatos em que a fragilidade, o embaraço, a dor e a esperança se misturam ou dialogam.

E como é disso que se faz a vida, como é com esse traço que se desenha em cores nítidas a emoção vivida, o que ela escreve assume essa qualidade especial de almejar a permanência na transitoriedade.

É evidente esse caráter mais estável que adquire a narrativa de Sonia, seja pela delicadeza no enquadramento dos temas e a sensibilidade no trato com a matéria da vida quanto pela reflexividade acerca das questões da existência.

O que esta autora apresenta ao leitor é algo além do registro da “superfície” com que lida a crônica banal. O que ela apresenta é o sumo das experiências que surgem a cada hora, a poética do vivido em baixa rotatividade, a dor e a beleza das coisas simples tais como são da casca para dentro.

Sonia escreve sem o pudor de desbaratar a emoção, num ritmo quase sempre tranquilo: “Hoje abri um livro e dele caiu a folha de bordo que eu trouxe de Montreal. Flutuou até o chão e o gato a destruiu em segundos. Tornou-se pó.

Imediatamente lembrei de Elizabeth Bishop e seu poema sobre a arte de perder”. Há uma relação fluida e transparente entre imagem e pensamento; uma associação fácil, mas não facílima, entre coração e intelecto.

Mas de tudo o que sua crônica visita, tenho especial afeição pela memória familiar que ela reposiciona como tema de reflexão, na qual ressurgem lembranças de agradáveis tempos idos e saudades dos que se foram, mas sem deixar de lado as grandes interrogações que a gente se faz a todo momento acerca da morte e do existir, da permanência da alma, do sentido trágico ou sublime da vida.

É crônica, mas também poema.

Aliás, se não houver outro motivo para ler e reler estes textos que se espalham como um rio, talvez seja suficiente sair deste livro com a atávica sensação de que ele é o relato de um outro mundo, no qual o que importa são principalmente as pessoas e se deve ter esperança em tudo que vive, um lugar onde habitam o silêncio e a reverência, um ambiente de paz.

Lê-lo também seria uma excelente oportunidade para ouvir novamente a voz interior que insiste em ecoar a pergunta essencial que todo ser humano deveria fazer a si mesmo a todo momento, para esquivar-se de falhar tanto e errar a cada segundo tão miseravelmente: afinal, o que é mesmo que eu estou fazendo aqui?

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