Kuruntokai: Poesia Romântica Tâmil

Por Rafael Raffaelli

Sobre o livro

O tâmil (தமிழ்) e o sânscrito (संस्कृतम्) são as principais línguas clássicas da Índia. O sânscrito pertence à família linguística indo-ariana e o tâmil à dravidiana ou dravídica. O tâmil ainda é falado por milhões de pessoas e o sânscrito é língua morta.

O sânscrito é amplamente conhecido no Ocidente e o tâmil é uma incógnita. O tâmil e o sânscrito evoluíram por milênios em harmonia e engendraram expressivas literaturas arcaicas. Kuruntokai(குருதொங்கை Coleção Breve) é uma das antologias clássicas da literatura tâmil Sangam.

Abrange poemas breves criados há cerca de dois milênios por um coletivo intergeracional de autores. A tradição da literatura Sangam quanto à autoria é fundada na vivência coletiva ao longo de gerações.

O vínculo espiritual projeta-se numa poética impessoal e o desiderato transmuta-se em lírica imanente.

A literatura Sangam (சங்க இலக்கியம்) é classificada como akam (அகம் interno) ou puram(புறம் externo); akam refere-se ao amor romântico e puram aos eventos heroicos e políticos.

Por razões socioculturais a expressão íntima não se integra à vida pública e só em alguns casos se interseccionam. A tradição da literatura Sangam quanto à autoria é fundada na vivência coletiva ao longo de gerações.

O vínculo espiritual projeta-se numa poética impessoal e o desiderato transmuta-se em lírica imanente. A coleção é o apogeu da poesia romântica em língua tâmil e uma narrativa dramática fragmentária.

A coleção Kuruntokai está inserida nas Oito Antologias (எட்டுத்தொகை), transliteradas Ettuttokai. Destaca-se como um dos Dezoito Grandes Textos (பதினெண்மேல்கணக்கு) do corpus poético da literatura tâmil clássica. A cronologia da Coleção Breve é controversa.

Os indícios arqueológicos sugerem que foi redigida entre 300 a.C. – 300 d.C. durante o domínio da dinastia Chera[1], mas o período mais provável de sua compilação corresponde aos três primeiros séculos da era cristã conforme a análise linguística.

São poemas escritos em data incerta, porém é certo que em sua maioria precedem a era comum e concebidos no decorrer de trezentos anos. Baseada na métrica e na extensão dos poemas, a coletânea consiste em 401[i] poemas breves, com até oito linhas, de 205 poetas.

Dentre esses poetas, 16 são mulheres que redigiram 58 poemas[ii]. Os poemas eram recitados nas vilas aos camponeses iletrados e nos palácios às cortes eruditas dos reis.

A tradição oral tâmil atribuía ao bardo-narrador a seleção e a ordem dos versos declamados em público, conectando um poema ao outro com estrofes de improviso, para tornar a poesia atraente a todos os ouvintes. A obra completa e contextualizada só é acessível através de traduções em outros idiomas.

A tradução em português dos poemas transcriou o original comparando as cinco versões em verso e prosa em inglês editadas por Jayanthasri Balakrishnan para o Central Institute of Classical Tamil (CICT) em 2020.

A presente edição em prosa e verso da coleção Kuruntokai é a primeira tradução da obra em português e abarca 120 poemas selecionados de 94 poetas.

As versões em verso e prosa em português refletem os poemas selecionados pelo adaptador textualmente, i.e., com as mesmas palavras (ipsis verbis), exceto os conectivos inevitáveis na versão em prosa.

Devido à sintonia entre as versões, a polianteia poética pode ser lida tanto em verso como em prosa.

Em verso:

só o cego diz que é dia após o sol se pôr na vastidão vermelha quando o torpor se enraíza a flor noturna floresce no pó do desgosto

Lê-se assim em prosa:

Só o cego diz que é dia após o sol se pôr na vastidão vermelha. Quando o torpor se enraíza, a flor noturna floresce no pó do desgosto.

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