Prelúdio de Superfícies

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Prelúdio de Superfícies é um livro sem grandes enigmas. A única coisa enigmática nesse volume é sempre o lirismo descomedido e uma maneira simples e ao mesmo tempo erudita de tratar os temas comuns de uma terra que o autor chama sempre de Grupiara, Mata Preta e Baguaçu.

Ocorre que a terra em si mesma, simples e produtora de seus pássaros, seus rios e nascentes, suas veredas, suas serpentes, os ninhos nos galhos e outras coisas que podem mesmo redundar na respiração de um peixe, essa terra é desmembrada muitas vezes para ser enxertada com os grânulos de uma filosofia estudada a fundo.

Isso não altera a fecundidade dessa terra. Estamos falando de poesia. E de palavra em sua sistemática mais louvável, aquela do construtivismo de uma literatura de estilo próprio e nada convencional.

Certa vez, JH Henriques foi questionado por alguns escritores, entre eles Guido Bilharinho – sem o qual a literatura no Triângulo Mineiro não seria o que é e como é -, se esta poesia assim apresentada em Prelúdio de Superfícies não seria influenciada por Manoel de Barros, o grande do Mato Grosso.

Henriques respondeu com seus modos sinceros e muito altissonantes. Quando escrevi esse livro, nunca tinha ouvido falar de Manoel de Barros. Manoel de Barros me foi apresentado pela professora Ivanira Barbosa, muitos anos depois, por ocasião de uma sua visita ao escritor, em Campo Grande.

E que ele me enviou um de seus livros, nem sei mais qual.

De tal sorte que o livro é retirado de um estilo magmático, próprio do autor e de seus próprios pássaros. Não de pássaros alheios. E isso é verdade porque há muitas diferenças entre os dois poetas.

Entretanto, veja-se aqui o prefácio feito pela professora Tânia Maria Garcia para a primeira edição do livro.

Por Tânia Mara Garcia

Decifrando o “Tudo é água” de Tales, Nietzsche escreveu: “O filósofo busca ressoar em si mesmo o clangor total do mundo e, de si mesmo, expô-lo; conserva a lucidez para considerar-se friamente como reflexo do mundo, essa lucidez que tem o artista quando se transforma em outros corpos, fala a partir destes e, contudo, sabe projetar essa transformação para o exterior, em versos escritos”.

Neste novo compêndio, José Humberto Henriques, tal como, assim, o navio entre a Fenícia e a Jônia, universaliza as palavras, preludia o gesto antes do arremesso (cria eu porventura que cor de hortênsia / Basta bastante bastaria?) e delimita o vôo da pedra que, tangenciando a película aquosa, rompe a tensão e molda a superfície (o olho era água / a água que criava)

No verso inverso água-pedra, ele faz do ser, a totalidade da forma e do círculo, o macrocosmo da poesia (Não por necessidade sólida/ mas por simples harmonia líquida). Poesia que, entre a larva e a borboleta, regeometriza os vértices infinitos da arte.

Uma vez, muito tempo atrás, um menino de doze anos esticou o dedo em um mapa e me disse: “Esse é o pedaço de lugar mais bonito do mundo!”. Ele traçava uma paralela ao rio São Francisco que ia desde Poços de Caldas até perto do Corrente.

O menino andava viajando em romance que achara na estante do pai e afirmava, categórico: “É por aqui que eu quero, um dia, viver”. A fala me surpreendeu, dita assim, ao lado da janela de um quinto andar, bem no meio de São Paulo, por aquele garoto, muito mais de praia do que de mato.

Alguns anos depois (em 86 ou 87), lendo as primeiras poesias que José Humberto Henriques me mostrou, o meu dedo também escorreu perto do velho Chico, na passada das páginas.

E eu perambulei nos seus versos nesse lugar mais bonito do mundo, cerrado paralelo de Guimarães Rosa cercado pelos meridionais de Mário Palmério e pelos oestes de Manoel de Barros.

Talvez seja por isso que tanta gente fique buscando um pouco da vizinhança nos escritos de Henriques e se perca, nessa busca, tentando comparações.

Pode ser que esta seja a etapa em que o autor congrega seu lirismo mais fincado. Depois disso, seus livros são voltados para uma busca recorrente do experimentalismo dentro

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