Sobre o livro
Em Relatos após o apagão, descubra, através de uma narrativa ágil e viciante, uma coleção intensa de histórias de ficção científica apocalíptica e sobrevivência após o colapso tecnológico. Cada conto mergulha você em mundos devastados, com sociedades desmoronadas, cidades abandonadas e pessoas obrigadas a lutar para sobreviver sem tecnologia.
Rua sem lei Dia 97 após o apagão Raúl, mecânico antes do colapso
A primeira vez que vi um cadáver no meio da rua, não senti nada. Nem nojo. Nem medo. Apenas… aceitação.
Era uma mulher. O rosto coberto por um saco, as mãos amarradas. Ninguém se atrevia a se aproximar. Ninguém removia o corpo.
Deixamos ela ali.
A cidade cheirava a lixo, suor e medo. Ratos se moviam à luz do dia. Os supermercados já não existiam: apenas ruínas, prateleiras vazias e portas arrancadas.
E então eles chegaram.
Chamam-nos de Bando da Ponte.
Ninguém sabe quantos são. Ninguém conhece seus nomes.
Só se sabe que governam a cidade desde que a luz se apagou.
Se quiser atravessar a ponte, paga. Se quiser água do rio, paga. Se quiser viver, paga. E se não puder pagar…
Bem, termina como a mulher com o saco no rosto.
Tentei me manter invisível. Não tenho família, não tenho nada que me faça notar. Só restava eu, minha oficina vazia e algumas latas escondidas sob o chão.
Mas a invisibilidade é um luxo que acaba rápido.
Me encontraram numa noite. Três deles. Entraram na oficina como cães farejando carne.
—Esconderijo bonito —disse o mais alto, chutando as latas com a bota—. Agora é nosso.
Quis protestar. Não fiz. Apenas assenti.
—E você? —perguntou outro, com um sorriso torto—. O que faz para merecer o ar que respira?
Não soube o que responder.
Me bateram. Não para me matar. Apenas para deixar claro que nada mais era meu. Nem comida. Nem ar.
No dia seguinte, acordei com a boca cheia de sangue seco.
E uma ideia.
Eu podia continuar invisível. Ou podia me tornar um deles.
A escolha não foi difícil.
O primeiro trabalho foi simples.
Me deram uma faca enferrujada e me levaram à rua do mercado. Lá estava um homem, ajoelhado, tremendo. Um ladrão, disseram.
—Faça.
Senti minhas pernas travarem. O cara me olhava, com os olhos arregalados.
—Por favor —sussurrou—.
Eu também quis dizer algo. Uma desculpa. Um “não posso”.
Mas não saiu.
Então fiz.
A faca entrou mais fácil do que eu imaginava. O sangue, morno, encharcou minha mão.
Eles aplaudiram. E eu soube que não havia mais volta.
As semanas seguintes foram um nevoeiro de gritos, golpes e fogo. Queimávamos casas. Saqueávamos quem parecia fraco. E matávamos. Matávamos muito.
Mas o pior não era fazer. O pior era perceber que estava começando a gostar.
A sensação de poder. O controle. Depois de tanto medo, de tanto me esconder, finalmente era eu quem decidia quem respirava e quem não respirava.
Fui promovido rapidamente. O mecânico magro já não existia. Agora eu era Raúl “o Surdo”, porque não ouvia súplicas.
Até que um dia eu a vi…
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